O que é Saṅkalpa ?

Existe no mundo de Yoga e Vedānta o conceito muito disseminado de saṅkalpa como uma determinação, resolução, intenção, etc. Esse conceito veio dos rituais védicos, homas ou yajñas, nos quais o yajamāna, a pessoa para quem o ritual é feito, que arca com todas as despesas da empreitada e para quem o resultado é dado, anuncia, no início da cerimônia, o seu nome, localização geográfica e todos os mais mínimos detalhes relacionados com a posição da pessoa no cosmos (como o nome da kalpa, ciclo de criação, na qual estamos, o nome do criador da presente kalpa, e muitas outras coisas do tipo), para que o yajamāna seja o mais bem especificado quanto possível, e o resultado seja dado para ele.

Durante esse processo do saṅkalpa, com as mãos fechadas uma sobre a outra, em cima da perna direita, e contendo dentro delas uma flor com uns poucos grãos de arroz amarelado com açafrão, a pessoa deve fazer o saṅkalpa em si: a determinação daquilo que ela quer na forma de um pedido para que Īśvara, na forma da deidade específica daquele templo ou altar, conceda a benção, puṇya, como resultado do ritual que está sendo feito, e que agirá em favor da obtenção daquilo que a pessoa está pedindo.

Acontece que, entre os praticantes de yoga ou pessoas ligadas, de algum modo, à espiritualidade, existe a noção bastante disseminada, proveniente provavelmente de teorias de algum ramo da neurolinguística ou da psicologia, de que um saṅkalpa – a expressão do desejo de obter algo que uma pessoa queira – deve ser feito como se ela já tivesse alcançado aquilo que ela quer, no tempo presente. Por exemplo, se a pessoa está com câncer e quiser ser curada, ela deveria repetir algumas vezes no saṅkalpa: “Eu estou curada do câncer, eu estou curada do câncer…”, e depois colocaria a flor com arroz e açafrão aos pés da deidade. Isso está errado? Por quê? Por acaso isso não pode produzir algum resultado positivo?

De fato, a autossugestão, o otimismo inabalável – muito ligado, inclusive, ao efeito placebo que, caso não saibam, é levado muito à sério na medicina e, em estudos científicos de eficácia de medicamentos, frequentemente tem resultados percentuais de eficácia muito parecidos com o do medicamento estudado e, muitas vezes, principalmente se a relação de confiança com o paciente for forte, médicos podem recorrer ao efeito placebo para curar a queixa do cliente, dando uma cápsula de açúcar para curar alguma queixa que o médico desconfie ser improcedente, ou por qualquer outro motivo razoável; enfim, tudo isso tem sim resultados positivos em muitas ocasiões, devido a certa ordem psicológica, muito ligada a questões de confiança, otimismo, fé, etc.

Essa ordem psicológica responsável pelos resultados positivos da autossugestão, etc., tem sido seriamente estudada há muitas décadas, desvelando cada vez mais claramente a exata relação de causa e efeito entre certas possibilidades de funcionamento da mente com resultados materiais específicos, como a autossugestão e outras técnicas mentais serem capazes de curar ou amenizar males específicos como enxaqueca, dores em geral, ansiedade, depressão, etc.

Contudo, uma técnica mental como a autossugestão não tem nada a ver com o saṅkalpa védico. A autossugestão produz um resultado visível, dṛṣṭa-phala, que é a causa direta do efeito alcançado, e a relação causal entre a ação e o efeito é logicamente estabelecida. O saṅkalpa que faz parte do ritual védico, contudo, produz um resultado invisível, adṛṣṭa-phala, chamado puṇya, mérito, que não tem qualquer relação lógica ou perceptível com o efeito que se quer alcançar. Jogar flores em uma estátua de pedra falando sons que significam palavras em sânscrito não tem qualquer relação causal perceptível com a cura de uma doença como o câncer, por exemplo, porque o puṇya produzido pelo ritual é invisível, não-manifesto. Não tem como ser comprovado ou estudado, mas se manifesta em dado momento futuro (imediato, próximo ou distante – às vezes só em outra vida) removendo os obstáculos que impediam a pessoa de desfrutar do resultado que desejava.

O karma-védico – pūjā, yajñas ou homas – é feito visando unicamente o resultado invisível, creditado na conta kármica do indivíduo, que trará, no futuro – sem que saibamos como – as condições perfeitas para que o resultado seja alcançado, anulando os obstáculos que o preveniam.

Por isso, é importante que o yajamāna, a pessoa para quem o ritual é feito (ou que o faz para si mesmo, o que também é possível, principalmente em rituais mais simples como a pūjā doméstica), expresse claramente no seu saṅkalpa (além do seu nome, lugar, etc., para que o puṇya caia na conta certa, digamos assim) o resultado que ela quer alcançar como algo que ela quer e não tem, para que ele possa ser dado por Īśvara, o doador dos frutos das ações, o karma-phala-dātā. Se uma pessoa apenas expressa um fato consumado, verdadeiro ou não: “Eu estou curada do Câncer”, mesmo Īśvara, o ser onipotente, na forma da lei do karma não poderá fazer nada. Mesmo que puṇya seja criado pelo ritual, ele poderá ser creditado na conta do indivíduo, mas não será necessariamente usado para anular os obstáculos que impedem a saúde e promovem o câncer, porque isso não foi expresso como o motivo do yajamāna ao fazer o ritual.

Portanto, em um ritual, expresse claramente o seu desejo: “Eu, fulano de tal, filho de tal e tal, estou aqui em tal lugar e faço agora este karma para que o Senhor me abençoe, curando-me ou dando-me os meios para que eu me cure desta doença o mais rápido possível”.

O que diferencia, portanto, o ritual védico de alguma técnica psicológica de autossugestão ou coisas do gênero, não é que o primeiro funcione e o outro não. A questão é o meio pelo qual eles funcionam. Nas técnicas psicológicas os resultados são visíveis, diretamente ligados a causas conhecidas e, quanto mais forem estudados e mais forem esclarecidas essas relações diretas, mais desenvolvida será esta ciência de cura. O “saṅkalpa” feito como uma afirmação positiva e presente de um fato consumado, pode produzir resultados e ser eficaz por uma ordem psicológica existente no universo, que pode ser conhecida e manipulada, mas ele não tem nada a ver com o saṅkalpa original, o termo védico, porque o ritual – pura revelação védica – não pode ter sua relação causal ligada a qualquer resultado produzido, já que o puṇya produzido por ele é totalmente invisível, não-manifesto.

Deste modo, é bom que saibamos exatamente por que motivo um ritual védico é feito. Ele não é feito visando um resultado visível, como sentir-se bem durante e depois de uma pūjā – o que é, vejam bem, um resultado visível que tem sua causa psicológica perfeitamente entendida quando a pessoa tem uma conexão e fé naquele ritual – mas visando principalmente o puṇya, que você não vai ver nem sentir no ritual, mas que, ficando não-manifesto na sua conta kármica, no chamado corpo causal, vai se manifestar no momento oportuno, eliminando os obstáculos para produzir, junto com os outros esforços que você fará, aquilo que você deseja.

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