O que fazer se me sinto desconfortável com rituais e orações?

Algumas pessoas são “devotas natas”, são naturalmente absorvidas por rituais, missas, orações ou qualquer prática religiosa. Outras pessoas são indiferentes às práticas ritualística pela falta de exposição ou de oportunidade não desenvolveram esses aspecto da sua personalidade. Existem ainda aqueles, que não se conectam, não gostam, não tem o desejo de participar ou até mesmo tentam, mas internamente identificam algum tipo de desconexão e não se sentem confortáveis com rituais, orações, rezas ou qualquer atividade associada a religião.

Em geral pensamos em duas causas para isso: o aspecto religioso e o aspecto psicológico.

Como o tema religião já foi muito abusado na nossa sociedade através de “crenças cegas ou exploração financeira”, é fácil taxar esse tipo de atividade como inadequada e criar uma resistência a mesma.

Já no aspecto psicológico, a figura de Deus é a representação da “autoridade de uma forma absoluta”. Se o indivíduo tiver um problema em lidar com a figura paterna, é natural que também tenha para lidar com Deus. Afinal de contas Deus é o “papai do céu”, que é muito mais ameaçador. Em casa o pai coloca 1 dia de castigo, ou bate com o cinto, mas, Deus coloca para sempre de castigo no inferno, com torturas! Quem pode realmente não ter medo disso?

Sobre essa questão, a tradição védica coloca 3 pontos que devem ser levados em consideração para aqueles que estão na busca pelo autoconhecimento:

1º Apesar de nem toda pessoa religiosa estar interessada no autoconhecimento, uma pessoa com esse objetivo é religiosa, pois não desconsidera o aspecto religioso da sua vida. A relação com Deus está presente o tempo todo e este reconhecimento é um passo fundamental para o entendimento de si.

2º Deus, paraíso e todos os assuntos que não estão disponíveis para serem conhecidos naturalmente pelo ser humano, devem ser descobertos através de um meio de conhecimento com o apoio da lógica. O meio de conhecimento que temos disponível para esses temas são as escrituras, mas não podemos abandonar a lógica e as nossas experiências, aceitando qualquer coisa que esteja sendo dita.

3º Como qualquer outra atividade do mundo, uma pessoa só vai realizar orações ou práticas ritualísticas se enxergar algum ganho nisso.

O que se ganha com orações?

Os Vedas colocam que uma oração é uma ação como qualquer outra e que portanto vai produzir um resultado. Uma parte do resultado será visível, tangível, outra parte intangível. Essa parte intangível é chamada popularmente de “karma”. Todas as ações tem esses 2 aspectos: um tangível e outro intangível. Quando a pessoa realiza uma ação inadequada atrai para si resultados intangíveis negativos, que vão se frutificar em situações desconfortáveis no futuro. Da mesma maneira, quando a ação é adequada os resultados intangíveis produzem situações confortáveis na vida dessa pessoa.

O que em geral nós não sabemos é que o entendimento de Deus não precede a oração, o que a princípio parece natural.

A maioria das pessoas reza pedindo por resultados materiais com um entendimento parcial do “Criador”, seja através de um nome ou outra representação simbólica ou uma história mitológica. Os Vedas colocam que de todos os tipos de devotos, aquele que faz suas orações com o objetivo de conhecer a Deus é superior aos outros.  Ele é visto como superior, pois, reconhece sua limitação sobre o entendimento de Deus e tem a sensibilidade de perceber que por detrás desse entendimento existe uma satisfação que é superior ao que os outros estão pedindo.

No entendimento de Deus como a ordem que regula todo esse universo existe a apreciação do “todo”. Nessa apreciação o indivíduo que se via alienado de tudo que ocorre a sua volta, se enxerga como parte desse grande movimento que é a criação. O “todo”, que inclui as estrelas, a terra, os animais, as plantas, o sol, as palmeiras, a nossa infância, a sociedade em que vivemos, nosso corpo e a nossa mente não deixa espaço para o sentimento de inadequação e limitação, que nos persegue no dia dia. Nossa individualidade faz parte dessa ordem, com todas as suas limitações intrínsecas, não existe pensamento inadequado ou ação de um indivíduo fora da ordem psicológica da nossa espécie.

Dessa maneira na apreciação do Criador ocorre a suspensão dos nossos complexos e julgamentos e a descoberta de mais um papel na nossa vida: o devoto. Entre o Criador e a criatura existe um sentimento para ser descoberto, como na relação de pai e filho. O “amor nato” por aquele que dá e aquele que a recebe a vida, é uma pequena fração do “amor nato” da nossa relação com Criador do universo inteiro. Pais têm conhecimento e capacidades limitadas, eles sempre vão falhar, mas o que pode estar além do Criador do tempo e do espaço? Nessa relação o amor sentido não tem dimensões, nem limites, simplesmente inclui tudo.

Conforme a tradição védica esse é o objetivo final de qualquer oração, as vezes chamado de Vishnu Bhakti – Devoção ao Criador. Fazemos as orações para poder ter devoção, para trazer a tona esse papel fundamental do devoto, que liberta o coração e que em última instância culmina no autoconhecimento.

“Fazer uma oração é por si só uma grande benção e por isso, até mesmo para ter essa iniciativa precisamos das benção Dele. Não podemos dizer o que vem primeiro.

Se existe um desconforto,  não precisamos assumir essa responsabilidade sozinhos. Por que não dividir com o único que pode nos ajudar?

– Que Deus abençoe a todos nós para cumprir nossa jornada espiritual!”

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