O Sábio e o Saber

Segundo dizem as escrituras de Vedanta, o indivíduo é, basicamente, ignorância. Não que o indivíduo seja uma coisa real que possua ignorância, mas ele mesmo é ignorância, é um feito da ignorância. A individualidade é uma noção criada e sustentada por ignorância. “Criada e sustentada por quem?”, perguntou um brilhante discípulo a um mestre. “Por este que está fazendo a pergunta”, foi a resposta.

Vedanta visa a aniquilação do indivíduo, junto com todas as suas perguntas sobre onde, como, quando e por quê. Entendendo o que é para ser entendido, não resta nada, nem mesmo o entendedor. Resta apenas aquilo que nunca pode ser negado, aquilo que de fato é, existente por si mesmo, evidente por si mesmo.

Essa é a única coisa que pode ser realmente compreendida por alguém. É, também, a única compreensão sobre a qual nenhum indivíduo pode se gabar de ter, sem cair em constrangedora contradição. Portanto, para todos os efeitos, ninguém sabe nada!

Então, quanto mais uma pessoa pensa ou diz conhecer uma coisa, mais ignorante ela é, porque leva muito mais tempo e é muito mais difícil fazê-la reconhecer a única coisa que ela pode de fato saber: que não sabe.

Se perguntarmos a alguém, “O que eu tenho na minha mão?”, mostrando-lhe uma orquídea, ele responderá:

  • “Uma flor.”
  • “Que flor?” – continuamos indagando.
  • “Não sei.”

Ótimo. Esse leva jeito para sábio. Apenas uma pergunta e ele já chegou à conclusão de que não sabe.

Outra pessoa:

  • “O que é isto que tenho na mão?”
  • “Uma flor.”
  • “Que flor? ”
  • “Uma orquídea. Linda!”
  • “Que orquídea?”
  • “Que tipo de orquídea? Não sei.”

Essa pessoa, do ponto de vista mundano, diríamos que sabe mais do que a primeira, porque sabe que aquela flor é uma orquídea. Mas o que ela sabe? Apenas um nome a mais, que está encobrindo o fato de que ela não sabe! Orquídea é só um nome. Se perguntarmos o que é orquídea, ela não saberá dizer. Então ela nada sabe.

Precisamos de um especialista ou, na minha definição de especialista, alguém cuja lista de nomes antes do “não sei” seja um tanto mais longa.

  • “O que é isto que tenho na minha mão?”
  • “Uma flor.”
  • “Que flor?”
  • “Uma orquídea.”
  • “Que orquídea?”
  • “Uma Pabstia jugosa.”
  • “O que significa Pabstia jugosa?”
  • “Não sei”

Vejam que interessante. O significado do nome exigiria da pessoa o domínio de um outro ramo de conhecimento completamente distinto da botânica. Ela deveria saber Latim. Mas, mesmo que continuássemos dentro do seu ramo de conhecimento:

  • “O que é isto que tenho na minha mão?”
  • “Uma flor.”
  • “Que flor?”
  • “Uma orquídea.”
  • “Que orquídea?”
  • “Uma Pabstia jugosa. Linda!
  • “Que é uma orquídea?”
  • “Orquídeas são as plantas que compõem a família Orchidaceae, pertencente à ordem Asparagales. Apresentam muitíssimas e variadas formas, cores e tamanhos e existem em todos os continentes, exceto na Antártida, predominando nas áreas tropicais”. (fonte: Wikipedia)
  • “Por que essa orquídea tem manchas roxas, e não amarelas”
  • “Porque essa é uma Pabstia jugosa.”
  • “Certo… (neste momento identificamos que estamos diante de um grande especialista, uma pessoa realmente especial). E por que uma Pabstia jugosa tem manchas roxas, e não amarelas?”
  • “Ora, sei lá!”

Ah, finalmente! Muito bem! Sei lá era justamente a resposta que esperávamos, a resposta certa, a resposta final. Mas ela precisou falar um bando de coisas (incluindo nomes em Latim pronunciados provavelmente de modo incorreto) – cada uma das quais exigindo sua própria lista de perguntas, que obviamente passam batidas – para chegar à conclusão de que, enfim, não sabe.

Talvez fosse preciso uma banca de especialistas em diversas áreas de conhecimento distintas para examinar por que aquela flor tem aquela coloração e não qualquer outra. Eles iriam passar meses ou anos, financiados pelo instituto governamental de desenvolvimento cientifico, para então escrever um paper, um catatau de palavras chegando a alguma conclusão que, por mais acertada que fosse, exigiria de nós apenas uma perguntinha a mais, para que ouvíssemos: “Não sei! Alguém, por gentileza, tira esse cara chato daqui!”

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