O Significado do Om

Oṃkāra, a sílaba Om, é a marca maior da tradição védica. Quando ouvimos o som “Om”, sabemos que quem está falando é o Veda. Existe um famoso mantra que começa dizendo, “Aquele que é o touro dos mantras védicos – yaścandasāmṛṣabhaḥ”. Assim como, em meio ao gado, a presença de um touro se destaca na nossa visão, o mantra Om se destaca nos versos dos Vedas, estando sempre presente, com sua imponente sonoridade, no início de cada mantra. Não há como perdê-lo de vista.

O mero som dessa sílaba é auspicioso. Há um mantra que afirma: “oṃkāraścāthaśabdaśca dvāvetau brahmaṇaḥ purā kaṇṭhaṃ bhittvā viniryātau tasmānmāṅgalikāvubhau – a sílaba ‘Om’ e a palavra ‘Atha’ emergiram da garganta de Brahmā há muito tempo [no começo da criação]. Portanto, ambos [os sons] são auspiciosos”.

Temos que entender, aqui, que o Om é um símbolo sonoro, e não um símbolo visual ou uma forma. Por isso nunca veremos, tradicionalmente, o símbolo do Om sendo usado como imagem, recebendo as oferendas e orações dos devotos. O que importa no Om não é sua forma, mas seu som.

Além do som, o significado gramatical dessa palavra também é auspicioso, māṅgalika. Formado a partir da raiz ‘av’, com o sentido de proteger, Om é aquilo que protege.

Mas, além do significado gramatical, há um significado fonético muito interessante que torna o ‘touro dos Vedas’ ainda mais auspicioso.

Om é formado pelas vogais a, u, m. ‘A’ é o som que sai da boca de uma pessoa quando ela simplesmente abre a boca, sem qualquer restrição, e emite um som. ‘M’ é o som feito quando fechamos a boca e emitimos um som. Entre ‘a’ e ‘m’, todas as modulações possíveis com aparato vocal (lábios, língua, garganta, dentes, céu da boca, etc.) que modificam o som básico de ‘a’ são representadas pela vogal ‘u’.

Assim, podemos dizer que todas as palavras, em todas as línguas existentes, que já existiram ou que ainda existirão, estão contidas no som ‘Om’, já que qualquer coisa que qualquer pessoa fale em qualquer idioma começa com ela abrindo a boca (a), fazendo alguma modulação com os lábios, língua, etc. (u), e termina com o fechamento da boca (m). E o que isso tem de tão auspicioso?

Todas as coisas criadas são só nomes, palavras. O Veda afirma, “A criação é baseada na fala, é mero nome – vācārambhaṇaṃ vikāro nāmadheyam”. Isso significa que a única realidade de um pote de argila é o nome ‘pote’, já que, na verdade, tudo que existe naquele objeto é a argila. Assim como o pote, todo o universo criado é só nome, das imensas galáxias aos minúsculos átomos.

Portanto, não é que existam coisas às quais adicionamos nomes. As “coisas” mesmas são nomes, conceitos pendurados na nossa língua e nada mais. Isso significa que, de acordo com o que afirma o Veda, “Tudo isso é essa sílaba Om – omityetadakṣaramidaṃ sarvam”, já que tudo é só nome e todos os nomes estão inclusos no Om.

Assim, a palavra Om, na sua concisão fonética amplamente significativa, é o nome perfeito – o nome universal, que independe de qualquer idioma específico – para Deus, a causa da criação, porque a causa da criação é aquilo que contém toda a criação, i.e. todos os nomes.

Finalmente, o Om é carregado de significado pela Māṇḍūkya Upaniṣad, que usa a sílaba para indicar a realidade última, aquilo que é livre de todo o universo de nomes e formas, que é a paz, shivam, livre de qualquer coisa que não seja ele mesmo, advaitam (não-dual).

A Upaniṣad, usando o Om para indicar tudo que existe na experiência de uma pessoa, diz que o ‘a’ é o estado acordado, no qual o indivíduo conhece um mundo empírico externo a si por meio dos cinco sentidos. Assim como a vogal ‘a’ é a expressão plena do som (a boca toda aberta sem nada para constringir a saída do som), no estado acordado uma pessoa tem a experiência plena dos três corpos, i.e. um corpo físico formado dos cinco elementos, mais o corpo sutil (os prāṇas junto com a mente e os sentidos) e o corpo causal (a ignorância junto com todos os resultados ainda não manifestos das ações passadas).

O ‘u’, diz a Upaniṣad, é o estado de sonho, no qual o indivíduo conhece um mundo subjetivo, formado apenas pelas suas próprias memórias da experiência acordada. Assim como o som do “u” é formado por uma restrição parcial do som ‘a’ (através da contração dos lábios), o estado de sonho se dá pela supressão do corpo físico e do mundo externo, mantendo-se apenas a expressão do corpo sutil e causal.

Mas nem só acordado e sonhando vive o homem. Há também uma terceira experiência, na qual, alegremente, não estamos conscientes nem de um mundo externo, objetivo, nem de um mundo interno, subjetivo. Assim como no som do ‘m’ todos os possíveis sons encontram sua dissolução, no estado de sono profundo há uma dissolução completa da dualidade que caracteriza a experiência, seja objetiva ou subjetiva. Essa experiência de “ausência de experiência”, onde apenas o corpo causal está presente, é simbolizada pelo ‘m’, o som no qual todos os possíveis sons encontram sua dissolução.

Dessa maneira, o Om (a,u,m) é, em termos da experiência direta de uma pessoa, tudo o que existe, idaṃ sarvam, não havendo nada além do que é experimentado nos três estados.

Existe, contudo, um elemento essencial da experiência que passa despercebido na análise das três letras que formam o Om. Existe um fator tão implícito quanto fundamental na manifestação desse som. Antes de o pronunciarmos, existe o silêncio. Depois, o silêncio é rompido pelo som, e temos a manifestação do Om. Terminada a manifestação do Om, temos novamente o silêncio.

Em geral, o silêncio não é levado em conta. No entanto, sem o silêncio não seria possível a manifestação do som. Na verdade, o silêncio não sai de cena para dar lugar ao som, assim como o espaço vazio do copo não vai embora para que a água entre. É por causa do espaço vazio que a água pode estar lá, e é por causa do silêncio que o som é possível.

Assim, diz a Upaniṣad, no som do Om existe uma ‘quarta letra’, silenciosa, mas sem a qual as ‘outras’ três não seriam possíveis. De modo similar, existe um quarto estado (turīya-avasthā), sem o qual os outros três não seriam possíveis. Esse ‘quarto estado’ não é, como em geral as pessoas imaginam, um estado ‘transcendental’, diferente dos outros três, experimentado em meditação. Se fosse, variaria junto com os outros, e não poderia ser a realidade imutável que a escritura está tentando revelar.

A quarta letra é o Eu, ātman, o sujeito que é a testemunha da variação constante dos três estados e que, por testemunhá-los, é invariável e livre deles. Essa consciência é aquilo sem o qual nenhum estado existe, mas não é nenhum estado particular, já que eles variam e essa variação torna-se evidente apenas porque algo não varia. Este algo invariável é realmente você.

Portanto, a sílaba Om indica tudo: os três estados (que incluem o não-manifesto e o universo inteiro de coisas manifestas) e também aquilo que os sustenta e que deles é distinto. O Om é, assim, não só o nome de Deus, da causa da criação, mas é também o nome mais próprio para você que está lendo este texto agora (no estado acordado, suponho). É isto que a Upaniṣad está, em última análise, tentando revelar: você não é o João nem Marcos, nem Maria ou Adelaide. O seu nome é Om.

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