Os Vedas são Politeístas?

आकाशात् पतितं तोयं यथा गच्छति सागरम् ।

सर्व देव नमस्कारः केशवं प्रतिगच्छति ।।

ākāśāt patitaṃ toyaṃ yathā gacchati sāgaram ।

sarva deva namaskāraḥ keśavaṃ pratigacchati ।।

आकाशात् – do céu; पतितं तोयं – a água que cai; गच्छति – alcança; सागरम् – o oceano; यथा – da mesma forma; os oferecimentos e rezas paras todos os deuses; केशवं प्रतिगच्छति – seguem para Keshava.

Assim como a água que cai do céu alcança o oceano, da mesma maneira todas as orações para todas as deidades seguem para Keshava.

Esse é um verso muito belo e famoso na tradição védica, cuja beleza – além de derivar em parte da precisão da metáfora usada, que é ao mesmo tempo muito bela e simples, inteligível por todos – advém da verdade universal que revela: para quem quer que você reze: Ganesha, Jesus, São Jorge ou Yemanja, a sua oração vai somente para um único Deus, o único ser onisciente que é a causa da criação e que, nesse verso, ganha o nome de Keshava.

Keshava significa “Aquele que tem o cabelo bonito”, e é um epíteto de Krishna, a encarnação de Deus na terra, que não podia deixar de ser um homem bonito como um todo, o que também podemos inferir pela atração irresistível que mantinha sobre as gopis, que o seguiam encantadas para onde quer que ele fosse com sua inseparável flauta. Foi inevitável, portanto, como sempre acontece quando uma afirmação poética é proclamada pelas escrituras, que algumas pessoas entendessem esse verso de forma literal, concluindo que todas as orações feitas às “outras deidades” vão realmente para Krishna, sentando em seu céu de Vaikhunta, sendo portanto um desperdício herege e irracional que uma oração seja feita para qualquer outra deidade.

Essa conclusão provém de uma falta de entendimento do que sejam as “deidades” segundo o ponto de vista védico. Em geral, acusam o hinduísmo de politeísmo, do culto de vários deuses ou deidades, o que está a princípio plenamente justificado por qualquer um que tenha visitado a Índia e visto a miríade de deuses que adornam não só templos, mas lojas, taxis e outdoors. Existe, contudo, uma explicação perfeitamente racional para esse fenômeno de vários “deuses” , e ela é, no mínimo, dupla: uma metafísica e a outra psicológica. Comecemos pela mais fácil, a segunda.

É um fato que a psique humana tenha gostos e aversões diferentes. Um tigre é um bicho adorável para uns e uma fera abominável para outros. Quando o objeto é Deus, o mesmo mecanismo de gosto e aversão atua, fazendo com que certas formas de Deus sejam mais agradáveis para certas pessoas e vice-versa. Isso existe não só no hinduísmo, mas, provavelmente, em todas as religiões. Algumas pessoas se sentem bem ao se relacionar com o Cristo crucificado, outros o preferem sereno, apontando com o dedo indicador para o seu próprio coração, e ainda outros o preferem apenas de braços abertos, protetor e receptivo, como o Cristo Redentor no Rio de Janeiro. Apenas esse simples fato psicológico já justificaria a abordagem védica ou hindu da apresentação de vários deuses. Mas não se trata apenas disso.

Existe uma explicação metafísica, muito mais fundamental, para o suposto politeísmo hindu. Se Deus é a causa do universo – o que é uma afirmação universalmente aceita por qualquer um que aceite a existência de Deus – e a causa de todas as coisas não pode ter pegado o material de algum lugar para fazer todas as coisas (!), segue-se logicamente que Deus mesmo está na forma da criação, o que, em outras palavras, implica dizer que Deus é a causa material da criação, além de ser apenas a sua causa inteligente.

A causa material de um objeto, seguindo o nosso raciocínio, permeia um objeto. Se o vidro é a causa do copo, o vidro permeia todo o copo, isto é, ele está presente em qualquer ponto do copo. Similarmente, Deus, como a causa material do mundo, está em qualquer ponto do mundo, o que torna imediatamente todo o universo sagrado, uma expressão direta da inteligência divina. O sol deixa de ser uma bola de fogo inerte que por acaso está no céu possibilitando a nossa vida, para se tornar um aspecto ou manifestação direta de Deus – aquele aspecto que confere a vida, calor, beleza e, também, por que não, dependendo do karma de cada um – como prontamente concordaria um andarilho no deserto – sofrimento e morte.

O sol torna-se assim uma deidade, um aspecto da inteligência universal manifesto em uma forma particular. A terra também. Há um verso famoso na tradição, a ser recitado quando acordamos pela manhã e vamos colocar os pés no chão, que diz mais ou menos o seguinte: “Ó Mãe Terra, perdoe-me por pisar em você”. A sabedoria por trás disso é criar na pessoa a consciência real, concreta, de que ela está se movendo em um ser consciente, em uma manifestação inteligente. Você nunca verá um hindu pisando em livro, por exemplo, porque livro tem conhecimento, e conhecimento é uma deidade, Sarasvati, um aspecto particular da inteligência universal. Da mesma forma, você nunca verá um hindu deixando dinheiro jogado de qualquer jeito, ou no chão, porque dinheiro é riqueza, e riqueza é Lakshmi, outro aspecto da onisciência divina que permeia tudo.

Tudo é Deus e, portanto, tudo é reverenciável, tudo é apto para ser adorado. O ato de adoração religiosa, que é uma relação com Deus, deve ser necessariamente ser feita através de alguma forma. Mesmo olhar para cima e rezar já é uma forma. Mesmo quando alguém diz que não cultua nenhuma forma específica e diz só estar em contato com o divino em um ambiente totalmente natural e aberto, como em uma floresta ou praia, essa pessoa esquece que floresta e praia também são formas, tão limitadas quanto uma estátua de Ganesha ou Shiva.

Imagine alguém em frente de um quadro de Rembrandt, e imagine-a elogiando esse quadro, dizendo o qual belo e magnífico ele é. Quem ela está de fato elogiando? O papel, as tintas secas, a moldura? Não, ela está elogiando o Rembrandt, o autor do quadro – a sua inteligência, sensibilidade e habilidade.

Imagine agora um sonho. Imagine alguém dentro de um sonho elogiando a beleza de uma grande árvore que ela vê na sua frente. Quem ela está de fato elogiando? Ora, da mesma maneira ela elogia, ainda que sem saber, o sonhador, que está ali presente na forma da sua memória (inteligência) de árvore. Se a pessoa do sonho entendesse que aquilo era um sonho, e continuasse apreciando os vários aspectos do criador/sonhador, poderia ela ser chamada de politeísta? É claro que não! Ela sabe que o sonhador, o ser consciente que é a causa inteligente e material do sonho, é completamente livre de todas aquelas formas do sonho.

Agora imagine alguém apreciando qualquer coisa nesse universo – o céu estrelado, seu filho, a mutabilidade das coisas, uma flor de jasmim. Está claro que ela está, explicita ou implicitamente, consciente ou inconscientemente, apreciando o Criador, a causa da criação, na sua inteligência, sensibilidade e habilidade, assim como quem aprecia a maciez de um vestido está, conscientemente ou não, apreciando a maciez do tecido – a causa do vestido.

Se uma pessoa é religiosa e escolhe apreciar e adorar explicitamente o Criador, escolhendo para isso uma das muitas formas disponíveis com a qual ela se identifique, é claro que a adoração dela vai para o ser consciente único que é a causa do Universo, para onde mais iria? Nada mais existe! Se por acaso esse devoto, por alguma falha pessoal de raciocínio ou por doutrinamento religioso, ache que Deus é apenas aquela forma que ele está adorando, mesmo que isso não seja correto, ainda assim, segundo a tradição védica, não há nada de grande mal nisso – e essa é uma das grandezas dessa tradição, magnânima sob todos os aspectos.

Porque, a realidade sendo que as orações vão para a única fonte possível, i.e. o Criador único e onisciente, esse Criador irá abençoá-la também, até o ponto onde ela consiga mérito suficiente, produzido pelas suas próprias orações, para entender que existe apenas um Deus, que é tudo, e que, no fim das contas, é a sua própria consciência.

Não há briga ou disputa verdadeira entre um advaitin, alguém que compreende a verdade última revelada pelos Vedas, e qualquer outro tipo de devoto ou praticante espiritual.

Showing 0 comments
  • Daiana V
    Responder

    Lindo texto! Harih Om

Leave a Comment

Start typing and press Enter to search