Para que serve o yoga?

Essa é a continuação do texto: Qual a origem do yoga? – Para sermos imparciais, a segunda parte da análise requer que lidemos com dois tipos de argumentos, as teorias acadêmicas e a não aceitação da tradição védica como a origem do yoga. Quando a tradição descreve a si mesma, ela se diz perene, vindo junto com a humanidade através dos rshis como foi dito, mas e se não considerarmos a tradição dos Vedas como perene? Não poderia ser simplesmente mais uma obra no curso da humanidade? Entender a origem do yoga é fundamental para estabelecer “para que serve o yoga ou seu propósito.

Isso é o julgamento natural para alguém de fora da tradição, afinal todo conhecimento que entramos em contato existe dessa maneira. É baseado nesses argumentos que os cientistas definem os Vedas como criados há 3000 A.C.; e que cada um deles possui datas diferentes, chegando até a dizer que o “Atharva-Veda” é uma adição posterior, o “último dos Vedas”. Contudo, qualquer estudante dos Vedas sabe que essa é uma tradição oral, que existia mesmo antes do primeiro texto ser escrito e que eles foram escritos por Veda-Vyasa responsável pela divisão dos Vedas em “quatro livros” como são conhecidos atualmente. Se o Artharva Veda fosse realmente uma adição, não poderia ter sido mencionado na Taittiriya Upanishad, por exemplo, que faz parte de outro Veda, anterior a esse de acordo com os acadêmicos.

As análises acadêmicas dos Vedas tanto do ponto de vista da história quanto do sânscrito são por si só infundadas. E a razão é bem simples, porque o que se sabe de sânscrito e história para se julgar os Vedas, vem dos próprios Vedas. Os Vedas são considerados as escrituras mais antigas da humanidade, com base em que se poderia dizer que sua história está errada? Qual a fonte de informação contemporânea a eles? E do ponto de vista do sânscrito, aprendemos a interpretar as frases devido aos Vedas, a fonte de toda gramática sânscrita. Se houvesse um segundo conjunto de textos, em sânscrito, teríamos pelo menos alguma referência para discussão. Mas, até os Puranas, conhecidas histórias mitológicas da tradição hindu, ditos pelos historiadores como posteriores, são citados pelos Vedas, como na Vajra Shuci Upanishad. Sendo assim análise científica e acadêmica sobre os Vedas não tem consistência, pois não existe disponível para nós nem sânscrito nem história da época em relação aos Vedas. E se os Vedas são perenes, como eles próprios dizem, podemos até dizer que nunca existiu, nem história e muito menos outra literatura em sânscrito “de época” para eles.

Só nos sobra a própria tradição como fonte de interpretação dos seus textos. Mas mesmo sem base para avaliar poderíamos ainda dizer que não aceitamos os Vedas ou a tradição.

__Eu não quero levar os Vedas em consideração, eles não fazem parte da minha cultura e tudo isso é um crença. Meu yoga é diferente e não tem nada com isso!
__Que seja diferente! Qual mal faz? De onde vem o seu yoga?
__Meu yoga é da era do gelo! Muito antes dos Vedas existirem.
__Muito bem. Já que não existe nenhuma fonte científica anterior aos Vedas, com base em que você diz isso?
__Isso é o que meu mestre falou e o yoga sofreu muuuuitas influências está tudo errado, é uma disciplina perdida.
__Do que consiste o seu yoga perdido?
__Das posturas originais. Piguinasana: a postura do pinguin, toda aula começa com ela. Mamutasana: a do mamute que ridiculamente hoje é chamada de postura do cachorro. E toda aula termina com Fócasana: a postura da foca que hoje é chamada da (de) postura do cadáver.
__Hm… Me parece que a diferença só está no nome. O seu yoga começa a aula com “OM”?
__ Sim.
__O meu também. Mas se você não aceita os Vedas, como aceita o “OM”????
 

Mesmo que a gente tente, não tem como separar a tradição védica do yoga. Até mesmo a famosa “invasão ariana” muito usada pelos acadêmicos para explicar a origem dos Vedas, já é reconhecida pelos historiadores contemporâneos como “a invasão que nunca existiu”, inventada pelos ingleses que se sentiram ameaçados pela possibilidade da Europa não ser o berço cultural da humanidade. Através de varreduras de satélites eles localizaram o rio Sarasvati e não existem sinais de invasão nos sítios arqueológicos como eles referenciam e sim de migração.

Agora vem a parte final da nossa análise, lembrando da objetividade e do bom senso.

Se não tenho como objetivo defender um grupo ou uma marca, a variação de nomes entre posturas ou de estilos de execução não representa realmente uma diferença. E mesmo que haja um rshi ou receptor contemporâneo que receba de novo um conjunto de disciplinas, é apenas o entendimento do seu propósito que dará consistência a esse conhecimento, pois, em realidade, é mais importante para onde o yoga pode nos levar do que realmente discutir da onde ele veio.

São muitas atividades e exercícios, cada uma dá um resultado diferente para o praticante. Eles vão ajudar basicamente: corpo, sentidos, mente e intelecto. Todos os benefícios que buscamos podem ser resumidos pela palavra saúde ou equilíbrio em todos esses aspectos. Esse parece ser um entendimento unânime sobre o propósito do yoga, pois é isso que as pessoas buscam.

A questão é que esses aspectos não têm o mesmo nível de importância e quando entramos em contato com o yoga às vezes trabalhamos apenas um deles, e não é raro ver que até mesmo a simples prática de posturas pode estar nos levando para longe do nosso objetivo.  Nessa complexidade que é a individualidade humana: de órgãos, músculos, energia e emoções; qual é o resultado final que queremos obter? Se tivéssemos que escolher em viver em paz ou com um corpo flexível, sem dúvida optaríamos pela paz e a harmonia. Portanto esse deve ser o nosso critério ao escolher nosso “yoga” ou nossa prática. Não importa que o nome seja “yoga” ou “youga”, se veio da Índia ou do Egito, se o yoga está nos levando para mais perto desse objetivo, ele é bom para nós, senão deve ser revisto. Isso é objetividade e bom senso.

Se é dito que a humanidade veio da África e que o yoga vem junto com ela, então o provérbio africano vem a calhar para nos ensinar sobre o propósito do yoga.

“É preferível um exército de ovelhas comandado por um leão, do que um exército de leões comandado por uma ovelha.”

 

Não podemos comprometer o mais importante em prol de um resultado secundário e viver sofrendo. Do que adianta alongamento e beleza física se eu mesmo não me aceito e continuo em guerra com o mundo, ou ainda me coloco em uma posição de conflito com as normas éticas e morais da sociedade à minha volta? O que adianta ter um corpo em forma e não conseguir abandonar a mentalidade capitalista e competitiva que nos tira sono? Quem pode ser feliz assim? Claro que sempre vamos encontrar um lado bom em qualquer grupo ou atividade, mas não podemos esquecer o que é mais importante:

Para que serve o yoga? O yoga serve “a você”.

E por isso não pode ser oposto ao que almejamos para nós. Se o yoga tem como propósito nos ajudar a encontrar a pessoa feliz, livre e em paz, essa não será conquistada com segredos, competições e restrições. Essa pessoa livre é o “leão”, que deve conduzir todas as atividades que fazemos em nome dela.

Assim, com esse critério de bom senso, que possamos traçar nosso caminho por essa vida e apreciar os diferentes nomes e grupos, que vem e vão, nenhum dos que existem hoje, existia há mais de 200 anos atrás; que Deus nos abençoe para acomodar nossas diferenças em nome de uma verdade maior que está no fato de que não existe uma real separação entre nenhum de nós; “deixemos o leão comandar as ovelhas, para termos o prazer de ver as ovelhas virarem leões.

OM TAT SAT

Showing 5 comments
  • Meire Nannini
    Responder

    Gostei muito desse comentario pois ele nos abre a porta para uma grande reflexão!Namaste

  • Jonas Masetti
    Responder

    Obrigado, fico feliz que tenha gostado. harih om

  • Responder

    MARAVILHA; NECESSÁRIO SE FAZ: MEDITAR, CADA UM PODE E DEVE ADAPTAR-SE AO YOGA RESPEITANDO O SEU BIO-TIPO MUSCULAR E PSICO-FÍSICO; JUSTAMENTE INDO DE ENCONTRO AO HATHA-YOGA, HAJA-YOGA, KARMA-YOGA, MANTRA-YOGA, LAYA-YOGA, TANTRA-YOGA ETC.NAMASTE

  • Rosa Corrêa
    Responder

    Eternamente grata por esses artigos. Namaste!

  • Marcia Kreuz
    Responder

    Gostaria muito de fazer yoga, poderia me indicar alguém on-line gratuito? Será que existe? que seja uma yoga para o espírito também??

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