Por que Vedanta não é Filosofia Oriental?

Por falta de tempo, falta de interesse genuíno de quem pergunta, ou simplesmente por falta de paciência, quando alguém nos pergunta o que estamos estudando sob o nome de “Vedanta”, podemos responder que se trata de uma “filosofia oriental”. Ainda que seja uma boa resposta para aquietar a curiosidade do nosso interlocutor ou para nos livrar de qualquer embaraço de uma explicação mais profunda, essa definição de Vedanta não está tecnicamente correta. Vedanta não é filosofia. Muito menos filosofia oriental.

Toda filosofia é uma busca pela verdade, realizada por um ser humano que, honestamente, deseja encontrá-la e tem inteligência suficiente para chegar a algumas conclusões mais verdadeiras sobre o mundo, diferentes daquelas geralmente aceitas cegamente pelo senso comum. Essa pessoa, contudo, como fruto do seu dedicado estudo, não poderá descobrir que ela mesma, como aquela pessoa que estuda e se esforça por descobrir a verdade, é falsa.

Se você inicia uma ação com base em um pressuposto inicial equivocado, todas as decorrências daquela ação acabam apenas reforçando o pressuposto inicial. Se alguém esquece os óculos em cima da cabeça e depois sai procurando por eles, com a conclusão de que ela não está com os óculos, quanto mais ela procura e se esforça por achar os óculos mais distante ela estará de encontrá-los, porque mais reforçada estará na sua mente a conclusão inicial equivocada de que os óculos de fato não estão com ela.

Se o estudo de Vedanta começar com a atitude de que eu sou realmente ignorante e vou me esforçar para, sozinho, destrinchar todos os textos sagrados e encontrar neles a verdade sobre mim mesmo, então, por mais que eu estude, mais longe estarei do entendimento final do estudo, que é de que eu não sou um estudante, nem conheço ou desconheço coisa alguma. Por qual lógica alguém poderia chegar a essa conclusão partindo de si mesma, do seu próprio esforço?

Um estudante tradicional de Vedanta, durante a aula com seu professor, não está realmente analisando o texto. Ele está simplesmente relaxado, emprestando ao professor seu intelecto para que ele seja conduzido, pelas palavras habilmente ditas pelo professor, até um canto desde onde a verdade seja vista. Durante o processo de escuta da aula, o estudante – pela confiança no professor e pela coerência do conhecimento apresentado – deixa de estar presente como alguém que está fazendo alguma coisa. Não há esforço. Há apenas a atividade do meio de conhecimento (pramana) acontecendo, que independe da vontade e do esforço do sujeito.

Suponha que seus olhos estejam abertos, que você esteja acordado e que haja uma rosa vermelha na sua frente. O que acontece? Você simplesmente vê a rosa, porque os olhos, os meios de conhecimento para as formas e cores, a revelam, sem qualquer esforço deliberado da sua parte. Não há um engajamento do sujeito como um pesquisador, inquiridor ou filósofo na hora de simplesmente perceber o que está na sua frente. O processo de conhecer é passivo, no sentido de que há uma submissão deliberada à autoridade do meio de conhecimento que está sendo aplicado para conhecer aquele algo específico.

Em filosofia não funciona assim, na medida em que o pensamento do filósofo X não é tomado a priori como um meio de conhecimento para a verdade; muito pelo contrário. As suas teorias são questionadas à luz de dezenas de outras teorias de outros filósofos que disseram algo contrário ao que ele disse, com argumentos que têm muitas vezes a mesma força de persuasão que o seu argumento. Por isso, na Grécia, surgiu a escola dos céticos, cuja a premissa é de que qualquer coisa pode ser afirmada ou negada com argumentos igualmente persuasivos, levando o ouvinte necessariamente a uma suspenção do intelecto (epokhé).

Isso se dá porque o processo de realmente conhecer algo não é um processo baseado na lógica apenas (ainda que nenhum conhecimento possa ser ilógico). Conhecer significa aplicar o meio de conhecimento adequado para aquilo que se quer conhecer. Conhecer a rosa vermelha que está na sua frente significa que você concede aos olhos a autoridade de que eles são o meio válido para revelar formas e cores, e ponto final. Ali está uma rosa.

Sem a confiança de que um meio adequado utilizado para conhecer algo tem plena autoridade para revelar aquele algo, o conhecimento não é realmente produzido e, no nosso caso, Vedanta vira mais uma teoria, mais uma filosofia, uma “filosofia oriental”, e não faz nenhuma diferença prática na nossa vida, porque existem centenas de outras filosofias muito interessantes e que dizem coisas completamente diferentes. É por isso que os textos clássicos enfatizam shraddha, a confiança nas palavras de Vedanta como meios válidos de conhecimento, como um pré-requisito para o estudo e para entendimento final, livre de dúvidas. E é por isso também que vemos tantos acadêmicos com pós-doutorado em sânscrito e “filosofia Vedanta” sem a liberação, moksha, que seria o fruto natural desse conhecimento.

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