Prazer e Sofrimento

O yoga está muito ligado à figura do asceta, aquela pessoa que renuncia os prazeres mundanos em nome da busca pela sabedoria. Sem dúvida, há um consenso de que o yoga combina com um estilo de vida regrado, sem excessos nos prazeres sensíveis. Mas a razão dessa parcimônia com relação aos prazeres não é meramente a saúde do corpo físico, que certamente é abalada pela indulgência excessiva nos prazeres. Para um yogi, a grande razão para a moderação sóbria no que se refere aos deleites mundanos é o fato de que, do ponto de vista do yoga, prazer é sofrimento.

Há, no Yogasutra, o seguinte sutra: “parinama-tapa-samskara-duhkhaih guna-vrtti-virodhat ca duhkham eva sarvam vivekinah – para uma pessoa com discriminação tudo é sofrimento, devido aos sofrimentos da mudança, da aflição e das impressões mentais e devido também à oposição entre as atividades dos gunas” (II-15). Vamos entender o que isso quer dizer.

Que tudo seja sofrimento significa que sukha, a noção de prazer, conforto ou segurança que temos nas coisas no mundo é uma noção falsa. De fato, nos sutras a ignorância é definida como, dentre outras coisas, a cognição de prazer na dor – “duhke sukha-khyatih avidya”. Disso não concluímos que todos os masoquistas sejam ignorantes, mas que todos nós somos masoquistas! Sim, porque o sutra está falando sobre nós. Ele está dizendo que, quando ficamos felizes porque compramos um carro, isso é uma perversão tão grande quanto o prazer de ser chicoteado, porque no carro não existe de fato felicidade alguma. Se há algo no carro, é sofrimento. E, portanto, se o sujeito se relaciona com o carro achando que por causa dele ele está feliz, então tudo o que existe para esse sujeito é sofrimento, ainda que ele esteja com um sorriso no rosto se considerando um felizardo.

Se pensarmos bem veremos que Patanjali está certo. Em primeiro lugar, o próprio fato primordial de eu precisar de alguma coisa além de mim mesmo para ser feliz é em si mesmo sofrimento. Se, no momento da compra do carro, o comprador começar a contemplar seriamente o fato de que ele está ficando feliz por causa daquele carro que em si mesmo não possui felicidade alguma porque, em pouco tempo, estará velho e ultrapassado; em menos tempo ainda se tornará um fato banal da existência e não trará mais qualquer satisfação aos sentidos e à mente, que já se acostumou com ele; e, além de tudo, ainda exigirá tantos esforços e gastos de manutenção; então, vendo todos esses aspectos da realidade, ele não conseguirá ter qualquer grande felicidade ou prazer com relação à aquisição do carro.

Alguém poderia aqui objetar que o prazer da compra de um carro é muito abstrato, exige muitas expectativas falsas para surgir, ao passo que o prazer mais direto dos sentidos não é assim. Se eu como algo muito gostoso, ou faço sexo, ou mesmo tomo alguma droga que aja nos centros de prazer do cérebro, aí então o prazer é direto, é verdadeiro. A essa objeção, o Yogasutra responderia: não é bem assim… Para os prazeres sensoriais serem considerados bons ou desejáveis é preciso a mesma ação da ignorância sobre a realidade das coisas. Se o sujeito pensar direito ele verá que a busca de prazer é em si mesma sofrimento, porque o desejo por prazer não é pacificado pela indulgência nos objetos de prazer. Na verdade, por meio da indulgência nos objetos de prazer os sentidos ficam cada vez mais mimados, mais ‘experts’ com relação àqueles prazeres, exigindo cada vez prazeres maiores e mais elaborados para alcançar a mesma experiência de satisfação. Portanto, entregar-se aos prazeres achando que se está obtendo felicidade é como pular dentro do lixo para caçar pérolas e diamantes: é pura ignorância da realidade dos fatos.

Patanjali explica essas coisas no sutra usando os conceitos de parinama-duhkha, tapa-duhkha, samskara-duhkha, e guna-vrtti-virodha. A busca por felicidade ou prazer nos objetos não é possível por causa dessas quatro coisas. Parinama-duhkha significa o sofrimento associado à mudança. Porque tudo é constante mutação, a noção de que algo é fonte de prazer ou felicidade é falsa. Porque, ou bem o objeto de prazer muda, ou bem ele acaba, ou, se ele porventura nem mudar nem acabar, então os sentidos mesmos se enjoarão dele, ficarão entediados, porque a mente está submetida ao mesmo processo de mudança que atua nos objetos. Portanto, ter a cognição de felicidade em um objeto ou situação que não tem uma existência absoluta e perecerá no minuto seguinte é pura ignorância da realidade, pois ninguém é capaz de ficar realmente feliz sabendo que o objeto do qual sua felicidade depende está perecendo. Assim, se eu tenho a cognição de prazer ou felicidade em alguma coisa no mundo, é só porque não estou levando em consideração a realidade da mudança.

Mas alguém poderia objetar que, ainda que frágeis e perecíveis, os prazeres têm uma realidade momentânea que os fazem dignos de serem buscados. Mas a que custo? – perguntaria Patañjali. Tapa-dukha significa o sofrimento causado pela aflição, pela angustia, pela ‘cabeça quente’ (a raiz ‘tap’ em sânscrito tem o sentido de aquecer). O processo de usufruir de um objeto não é simples. Primeiro, deve haver um desejo pelo objeto. Havendo o desejo pelo objeto, há a expectativa de obtê-lo, que causa todo o tipo de ansiedade. Então é necessário arranjar os meios para alcançar aquele objetivo: é preciso juntar dinheiro, tempo, energia, pessoas, e sabe-se lá o que mais. Em todo esse processo há esforço, desgaste, irritação, medo. Então, depois de tudo isso, se finalmente tivermos a sorte de ganhar o objeto de desejo enquanto ainda resta em nós algum bom humor e boa disposição, então poderá ser possível ter alguma pequena satisfação. Sim, a satisfação é apenas uma possibilidade remota porque, mesmo na presença do objeto de desejo, é preciso que a mente calhe de estar na disposição correta para que haja algum desfrute prazeroso, coincidência essa que apenas a graça divina pode proporcionar, e nunca o esforço do sujeito. Além do mais, tendo alcançado o objeto é necessário conservá-lo, o que implica todo tipo de esforço e sofrimento. Assim, se eu tenho a cognição de prazer ou felicidade em alguma coisa no mundo é só porque estou ignorando a realidade da aflição, do esforço e da ansiedade envolvidos no processo de conquistá-la.

Além disso, também há samskara-duhkha, o sofrimento associado à formação de impressões e tendências na mente no processo de usufruir alguma coisa. Não saímos incólumes de nenhuma experiência. Além de adquirirmos mérito e demérito que nos empurrarão para um novo nascimento (e morte) futuro, a própria mente adquire gostos e aversões das experiência agradáveis e desagradáveis. Se uma experiência for muito agradável e prazerosa isso se torna um problema, porque se formará automaticamente na mente um apego àquela experiência, e o sujeito ficará ansiando pela repetição dela, que dificilmente poderá ser reproduzida igualmente pelos mesmos meios. Se, ao contrário, uma experiência for desagradável, se formará na mente uma aversão àquela experiência, aversão essa que naturalmente se estenderá para todas as outras situações semelhantes. E, então, qualquer situação futura que lembre mesmo que remotamente aquela experiência sofrida do passado é automaticamente percebida como ruim, indesejável, e nós sofremos, mesmo que a situação por si mesma não possuísse verdadeiramente razão para sofrimento. Assim, se eu tenho a noção de prazer ou felicidade em alguma experiência no mundo, é só porque não estou levando em consideração a realidade das impressões e tendências mentais geradas pela experiência.

Guna-vrtti-virodha, por fim, significa que existe uma oposição natural no funcionamento dos gunas. Existem três qualidades, gunas, no modo de ser de todas as coisas: sattva, rajas e tamas. Sattva é o que dá à mente e aos objetos a qualidade de leveza, claridade, suavidade, equilíbrio, beleza, conhecimento, virtudes, bem-estar, etc. Rajas é o que dá calor, movimento, paixão, desejo, raiva, ansiedade, agitação, etc. E tamas dá à mente e aos objetos as qualidades de imobilidade, peso, torpor, escuridão, confusão, erro, etc. Tudo no mundo é formado por esses três gunas, inclusive o prazer, que se dá quando sattva predomina na mente. Contudo, trata-se apenas de uma predominância temporária, porque as outras duas qualidades estão também presentes e, em tempo, necessariamente subjugarão sattva, que ficará em segundo plano.

Essa dança dos gunas é o que causa as diversas experiências de prazer, alegria (sattva predominante), sofrimento, angústia (rajas predominante), e torpor e sono (tamas predominante). O ponto aqui é que não é possível manter uma experiência de prazer por mais tempo que esse movimento natural de oposição entre os gunas permita. Tão logo sattva chegue no seu ápice, o seu movimento de decadência começa, junto com o movimento de ascendência de algum dos outros dois gunas, até que um deles tome o lugar de sattva.

A ciência moderna explica isso em termos da auto-regulação cerebral dos níveis de serotonina, um dos neurotransmissores responsáveis pela experiência de prazer. Se, por exemplo, alguma droga causar um descarga excessiva de serotonina nas sinapses neuronais, o cérebro compensará o excesso interrompendo temporariamente a produção de serotonina. A depressão pós-euforia se explica por essa razão. Assim, se eu tenho a expectativa de viver de prazeres e saio buscando uma sensação de bem-estar a todo custo, isso só se dá porque não estou vendo a realidade da oposição na atividade dos gunas.

Tudo isso tendo sido dito, não queremos deixar o leitor com a infeliz ideia de que a vida seja sofrimento, pois não é essa a intenção do sutra. A vida é sofrimento apenas se não despertarmos para os fatos descritos aqui. Mas, se soubermos das limitações naturais dos objetos, da mente, e da relação mente-objeto, então estamos livres de expectativas falsas e ânsias desproporcionais, e, fundamentalmente mais tranquilos, podemos nos contentar e tirar prazer das coisas mais banais que estão disponíveis de graça para qualquer um com a mente livre, tranquila e sensível o suficiente para apreciá-las.

Showing 2 comments
  • Mariana M
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    adoro os artigos, muito bom!!!!!

  • Zuleika C
    Responder

    Um artigo muito bem escrito e muito esclarecedor. Grata!

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