Qual a origem do yoga?

A origem do yoga e sua definição é um tema que evolui gradativamente para o praticante de yoga ao longo do contato com o “mundo yogi”. É normal começarmos qualquer estudo com um conhecimento geral sobre o tema, mas chega um momento em que é necessário um entendimento maior para que a prática e o estudo continuem fazendo sentido. Para tirar o maior proveito do yoga podemos usar o modelo clássico de questionamento: “de onde viemos e para onde vamos?”; e assim nos perguntar: Qual a origem do yoga? E qual o seu propósito, para que serve o yoga afinal de contas?

Um dos obstáculos atuais para qualquer estudo é o excesso de fonte de informação. Antigamente, sem internet, as pessoas eram totalmente desinformadas sobre certos temas, pois nunca ouviram falar, mas agora vivemos o excesso de informação e passamos a ter o problema oposto. Existe muita gente falando sobre o mesmo tema e muitas vezes sem dizer a mesma coisa. Para lidar com esse tipo de situação podemos usar dois artifícios de análise. O primeiro é desconsiderar todos os nomes e redefinir as atividades e ensinamentos com a objetividade de um cientista. Se nos permitirmos por um instante esvaziar a mente de todos os nomes que já ouvimos, principalmente as divisões de yoga e estilos; e ainda os nomes de mestres, os conceitos filosóficos pré-concebidos e os grupos a que pertencemos, teremos dois benefícios: existirá mais chance de estarmos falando do mesmo assunto, porque muitas vezes existem diversos entendimentos para o mesmo termo do yoga e o segundo é que nosso ego não precisa se defender para dizer que estamos no grupo certo ou que uma determinada pessoa não está errada. Afinal nosso compromisso nessa pequena análise é sobre a verdade e não com nenhum grupo espiritual, inclusive esse é o gancho para o segundo artifício de análise.

O segundo está no fato de que como o yoga trata da nossa vida, podemos por um instante nos dar ao luxo de escutar aquela “voz interna” do bom senso para avaliar, de forma neutra e objetiva, nosso tema em questão. Se nosso objeto de estudo fosse algo externo ou não relacionado à nossa vida talvez isso não fosse possível, mas se quisermos encontrar essa pessoa em paz dentro da gente, esse critério não é só válido, mas fundamental. Assim munidos de uma visão raio-X que ultrapassa nomes e grupos e um coração que olha com o bom senso de quem busca uma resposta para sua vida, mergulhamos no tema.

A origem do yoga

Quais fontes disponíveis existem para aferirmos essa resposta? Pensando objetivamente o yoga é constituído de um conjunto de exercícios físicos, respiratórios, visualizações, valores, histórias mitológicas ou não, cantos (de diversos tipos) e ensinamentos a respeito da natureza do sujeito e do universo. (propositalmente não usamos nenhum nome conhecido como mantra, japa ou pranayama, pelas razões descritas) De onde essas atividades vêm? Podemos pensar agora em algumas possibilidades e analisá-las.

A primeira hipótese que será rapidamente descartada é a criação independente de todo esse acervo. É tanto exercício, postura, livros e mais livros filosóficos, que não seria razoável que uma pessoa os fizesse sozinha, mesmo trabalhando uma vida inteira não dá tempo nem de elaborar ou produzir o material.

A segunda hipótese é que então não seja o trabalho de uma, porém de várias pessoas, onde tudo foi se juntando. Isso parece possível, mas existem algumas razões que nos fazem descartar essa idéia também. Se fosse isso, naturalmente a tradição de professores e alunos iriam reconhecer esse fato, como em qualquer outra atividade onde isso acontece. Vejamos na capoeira, por exemplo, quando a pessoa treina ela entra em contato com a cultura dos nossos ancestrais africanos, seja na música ou na história dos escravos, que mostram evidentemente que é uma luta que surge das suas raízes guerreiras africanas, com a influência da época. As músicas e até o nome dos movimentos são em homenagem aos seus professores.

Porém, no yoga é fácil descartar a criação por várias mãos. Primeiro porque os poucos textos milenares associados ao yoga como: os yoga sutras de Pantajali, ou a Bhagavadgita, não atribuem aos seus autores a criação do yoga. Na Gita, o próprio sr. Krsna diz: “Oh Arjuna, esse yoga que estou ensinando para você, é o mesmo yoga ensinado para os primeiros reis…”. Nos Yoga Sutras só existe um sutra, em todo o texto que é direcionado para posturas, mostrando que o propósito da obra é realçar outros aspectos do yoga, como a meditação e os valores universais e não ser a fonte do que conhecemos por yoga hoje em dia. Talvez seja apenas por sua obra conter “yoga” no nome, que Patanjali se popularizou e ficou conhecido como o “pai ou criador do yoga“.

Segundo motivo é que se os textos tivessem sido criados por várias mãos, devido ao seu volume, esses trabalhos seriam independentes, mas a tradição apresenta tudo tão bem costurado, que essa hipótese fica descartada. Os brahmanes têm incluso nos seus rituais diários o surya namaskar (saudação ao sol) desde o começo dos tempos, toda meditação é acompanhada de mantras e tudo está em sânscrito. Agora imaginemos que o sânscrito tivesse sido inventado por um Rshi com seus sutras, os ásanas por outro e os mantras por um terceiro, como seria possível conceber que todos eles se combinassem harmonicamente? É mais fácil ganhar na mega-sena do que saber cantar os mantras védicos do surya namaskar sem um professor de mantras adequado. E por causa do alto nível de interconexão entre as atividades do yoga, não é concebível a construção desse conhecimento por vários autores ou por partes.

Agora chegamos num ponto interessante porque se não foi obra de uma ou mais pessoas, como conceber esse conhecimento? Será que pode ser a obra de um espírito? É interessante, pois quando trazemos essa idéia de espírito é como se parássemos de pensar, mas a lógica continua a mesma. Um espírito sozinho encarnado ou desencarnado não poderia descobrir o yoga sozinho, ainda mais que sem corpo físico não se pode fazer meditação e muito menos posturas. Então esse espírito encarnado aprendeu de quem? Ou quando? E o problema persiste. A verdade é que o conhecimento da relação entre posturas físicas, nosso corpo energético e o corpo mental, para criar a complexidade dessa tradição de ensinamento, não está ao alcance de uma obra humana.

Como nossas hipóteses lógicas se exauriram podemos partir para o que é dito nos textos tradicionais. Lá é dito que Deus, em alguma forma, passa esse conhecimento para a humanidade através de pessoas específicas no início dos tempos. Essas pessoas que são categoricamente conhecidas como “rshis” na tradição, mas para fugir dos nomes podemos usar simplesmente “receptores”. Importante ressaltar que essas pessoas são distintas do que conhecemos genericamente pelo nome de “médium” já que eles não recebem esse conhecimento de outros seres ou espíritos, porém diretamente da ordem cósmica.

E realmente essa é uma explicação que não fere a lógica, pois Deus, sendo o criador das leis da natureza e dos corpos, pode conferir esse conhecimento; e ao mesmo tempo alguém tem que recebê-lo e repassá-lo para frente, então por que não haver um receptor para isso? Apesar de não termos uma experiência direta que comprove o fato, podemos aceitá-lo como dito pela tradição, pois não nos sobra opção. O yoga está aqui, não foi criado por nós, portanto vem da ordem cósmica, simples assim, como toda a fauna e a flora desse planeta.

Então aqui terminamos a primeira parte da nossa análise. O conhecimento do pacote que chamamos de yoga, por se tratar de um conjunto complexo de atividades que vão além da compreensão humana é visto como vindo de Deus (Shiva, ou seja lá o nome que quisermos dar) e é recebido por pessoas que funcionam como “receptores”.

Para que serve o Yoga?

Para sermos imparciais, a segunda parte da análise requer que lidemos com dois tipos de argumentos, as teorias acadêmicas e a não aceitação da tradição védica como a origem do yoga.

Continue a leitura através do link  Para que serve o yoga?

 

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  • José Valde Bezerra
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    achei bem interressante, será que o yoga não é uma herança dos primeiros MANUS?

  • Estela Sebestyian
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    Dea, muito bom. Vi videos do Jonas outro dia. Lindinho, centrado, iluminado.

  • Jonas Masetti
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    Ola José! que bom que gostou. Se os manus são referidos como os primeiros homens que começaram a humanidade, por que não? Seria coerente que eles recebessem esse conhecimento e afinal toda a humanidade nessa perspectiva é herança dos manus. Só não podemos estabelecer que eles inventaram o yoga se considerarmos eles pessoas limitadas como nós… abraços e harih om

  • Jonas Masetti
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    Ola José! que bom que gostou. Se os manus são referidos como os primeiros homens que começaram a humanidade, por que não? Seria coerente que eles recebessem esse conhecimento e afinal toda a humanidade nessa perspectiva é herança dos manus. Só não podemos estabelecer que eles inventaram o yoga se considerarmos eles pessoas limitadas como nós… abraços e harih om

  • Vera Burle
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    Gostei muito e pude entender perfeitamente …

  • Silvia Ferreira da Silva
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    E quem seriam os Rishis? Comuns mortais? Ou estariam eles ligados aos deuses serpente, a linhagem Naga. de origem extra-terrestre?

  • Neila de Figueiredo
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    APRENDI A GOSTAR DO YOGA COM MEU PAI, UM VERDADEIRO YOGI. GOSTARIA DE SER COMO ELE QUE APRENDEU SOZINHO COM A AJUDA DO PROFESSOR HERMÉGENES.

  • Jonas Masetti
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    A tradição não faz distinção entre as pessoas que nascem na terra ou fora dela, ambos são mortais. Os Rshis são entendidos como os primeiro homens dos ciclos de criação em geral antecedem qualquer linhagem, eles que começam elas. harih om

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    Esse blog está me ajudando muito a compreender um pouco mais sobre os ensinamentos yogis. Não é nada fácil compreender, mais estudamos arduamente e com o coração aberto, um dia chegaremos lá. Obrigada por compartilhar conosco seus conhecimentos.

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    O Tantra é o caminho oposto da Yoga. no entanto é tão divino quanto a Yoga.

  • Roberto Souza
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    Namaste Gabriel. Vc pode me dizer pq o caminho do Tantra é oposto ao Yoga? Tenho estudado desde 2009 no Sul da Índia o Tantra e nos tratados aqui encontrados não vi essa cotação. Vc pode me passar por favor o nome do tratado para eu ler diretamente do original para entender o contexto? Obrigado. om

  • Ana Maria Andrade
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    gostei

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    O Yôga mais antigo é de linha Tantra, mais precisamente da subdivisão Dakshinacharatántrika. Tantra significa encordoamento; teia; rede; regulado por uma regra geral; a maneira correcta de fazer qualquer coisa… (in "The Concise Sanskrit-English Dictionary"), trata-se de uma filosofia comportamental ancestral que possui características matriarcais, sensoriais e desrepressoras, sendo a mais rica, poética e artística tradição cultural da Índia. O Tantra é a mais antiga tradição comportamental; o Yôga a mais antiga filosofia prática e o Sámkhya a mais antiga filosofia teórica. Todas elas estavam (e estão, no Yôga mais antigo) intimamente interligadas. Isto numa civilização dravídica (matriarcal, sensorial e desrepressora) que existiu no Vale do Hindu. Após o domínio do povo Drávida, pelo povo Árya, ao longo de séculos esta civilização se tornou patriarcal, repressora e antissensorial e daí ter surgido outro sistema comportamental (Brahmáchárya) oposto ao Tantra. Nos dias de hoje cada vez mais vamos tendo consciência desse conceito (de encordoamento), ao considerar-se "a teia cósmica", em que tudo está interligado, o ínfimo contém o infinito e o infinito contém o ínfimo…

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    Lembrando: Yôga significa união, integração…. Sendo assim como é que Yôga e Tantra são caminhos opostos???

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