Qual o papel das técnicas de Yoga?

Vivemos num tempo onde praticamente toda a informação sobre qualquer assunto está disponível na internet, bastando apenas que o internauta seja perspicaz e paciente o suficiente para garimpá-la.  Esta disponibilidade vem bem a calhar em certas situações, como, por exemplo, quando alguém precisa de uma receita rápida de bolo de chocolate. Contudo, esta mesma disponibilidade instantânea de informação torna-se um problema quando o assunto é yoga.

O yoga dispõe de inúmeras técnicas de exercícios físicos, respiratórios, meditativos e comportamentais que pretendem atenuar os obstáculos que impedem a vida de uma pessoa de se expressar mais plenamente. Basta que olhemos rapidamente qualquer manual de hatha-yoga ou mesmo pôsteres modernos  de asanas executados por alguém aparentemente sem ossos para que não nos reste dúvidas quanto à multiplicidade de coisas possíveis de serem feitas sob o nome de yoga.

As pessoas então olham para esta abundância de técnicas e imediatamente concluem que o avanço no yoga é o avanço no domínio de todas as técnicas. O raciocínio parece tão lógico quanto um mais um são dois, e no entanto ele está completamente equivocado. A ideia de que um yogin “avançado” deve fazer todos os asanas, todos os pranayamas, todos os “kriyas” e também as meditações é absurda, e é um dos grandes obstáculos que o yoga enfrenta na atualidade. Esta conclusão, quando somada à facilidade com que todas estas técnicas podem ser acessadas por qualquer um em textos, fotos e vídeos “explicativos” na internet, torna as coisas ainda piores.

Mas afinal por que o yoga apresenta tantas técnicas, se não são para serem progressivamente dominadas pelo yogin? A variedade de recursos desenvolvidos pelo yoga ao longo do tempo tem dois motivos principais: a variedade de pessoas e a variação da mesma pessoa ao longo do tempo.

Yoga é a capacidade de estar vivo para uma alguma realidade, sem que padrões mentais a encubram ou distorçam. Para isso, uma pessoa deve possuir uma mente clara, alerta e calma, paciente, capaz de uma análise objetiva de si mesma e do mundo. Todas as técnicas – quer sejam posturas físicas ou meditação – visam em última análise este tipo de mente. Acontece que aquilo que pacifica e anima uma pessoa pode perturbar a outra com igual eficiência. Isto não é bastante óbvio?

Mande um jovem de vinte anos com a mente dispersa mas com boa disposição física fazer uma série de uma hora e meia de asanas que exijam sua habilidade física e concentração e é bem possível que ele se torne mais calmo e focado no final da prática. Peça para alguém de quarenta anos com a mente mais calma e focada mas com aversão a exercícios físicos executar as mesmas técnicas e no final da aula ele estará com raiva de você! Isto se ele não sair de lá machucado, o que é bem mais grave do que uma reação emocional pontual.

Agora peça ao sujeito de quarenta anos que se sente e observe a respiração contando mentalmente o tempo de inalação e exalação – uma técnica frequentemente usada no yoga –  e é possível que ele aprofunde a qualidade do seu estado mental, ao passo que o jovem de vinte anos ficará frustrado e ansioso com a aplicação da mesmíssima técnica.

E será que este mesmo jovenzinho continuará colhendo os benefícios eternamente daquela mesma prática de asanas que no começo lhe servia?  A resposta é bem fácil: com certeza não. Porque ele mudará. Ele arranjará um emprego, se casará e terá três filhos, e não terá tempo para praticar asanas por uma hora e meia como gostaria de fazer. E, se insistir em praticar desta forma, ele terá uma série de desequilíbrios que superarão infinitamente qualquer beneficio que uma prática de asanas poderia dar. Ele terá que acordar às quatro e meia da manhã, ficará com sono, perderá rendimento no trabalho, brigará mais com a mulher, não terá tempo para os filhos que se tornarão distantes, e assim por diante.

É claro que ele precisa de uma nova prática que se encaixe com sua nova rotina e responsabilidades. Talvez dez minutos de pranayama duas vezes ao dia sejam o suficiente. Ou meia hora de meditação pela manhã? Talvez ele não precise executar técnica alguma, apenas focar na qualidade do seu trabalho e da vida familiar. Quem sabe o que ele deveria fazer?

O professor dele deve saber, ou ao menos ter alguma ideia, a ser discutida e testada com ele. Este é um ponto crucial. As técnicas do yoga não são para serem escolhidas pelo praticante como ele escolhe legumes numa feira livre, mas estão disponíveis para serem avaliadas e escolhidas pelo professor, que está fora da cabeça do praticante e livre dos seus pontos cegos, ao mesmo tempo que o conhece com intimidade.

Outra confusão muito frequente com relação às técnicas de yoga é a suposição de que uma técnica mais difícil ou complicada indica que o praticante que a realiza é mais avançado ou que está mais perto do objetivo final.  – “Sabe de nada, inocente”, diria um grande mestre. O objetivo do yoga é fazer você estar com você mesmo, ao invés de estar identificado com toda a complicação mental usual. Quanto mais complicada a ferramenta que você precisa para atingir este simples objetivo, mais incapacitado você é, não é mesmo?

 

 

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