Qual o papel do professor de Yoga?

Em primeiro lugar, ainda que a prática de yoga possa começar como apenas uma atividade física com relaxamento no final, devemos saber que o yoga serve para atenuar os obstáculos da mente, gerar capacidade de discriminação e possibilitar o conhecimento da distinção entre o ser consciente e os processos mentais que, quando não discriminados um do outro, são causa de sofrimento.

Dito isto, o professor de yoga tem um papel decisivo neste processo de autoconhecimento. Mas por que o professor tem uma papel tão importante nesta tradição? Pois não é o próprio praticante o mais íntimo de si mesmo, aquele que melhor se conhece e sabe do que precisa, do que deve cultivar e do que deve se afastar? Por que alguma outra pessoa que não ele mesmo deveria fazer o papel de guiá-lo?

A rigor, isso é mesmo verdade. Não há ninguém mais íntimo do praticante do que ele mesmo, e sendo assim ele deveria saber melhor do que ninguém aquilo de que ele precisa na sua própria prática espiritual. No entanto, esta intimidade absoluta da pessoa com ela mesma é também causa de confusões, porque ela se torna comprometida demais com ela mesma no processo de querer o seu próprio bem. É como uma mãe com o filho. Querendo com força demais o bem da criança e conhecendo as aparentes limitações dela, a mãe pode cometer o erro de protegê-la demais das situações do mundo de modo a torná-la inapta para as exigências de uma vida adulta, por exemplo. Neste caso, é importante o papel de uma pessoa de fora – um terapeuta, por exemplo – para avaliar as reais capacidades da criança e ter o desprendimento de encorajá-la a sair para o mundo.

No caso de um praticante de yoga – qualquer um que deseje alcançar a liberação do sofrimento –  o processo é similar. Ele mesmo não pode olhar objetivamente para si, porque existe um viés no seu olhar para si mesmo causado por pontos cegos. Um ponto cego é a incapacidade de uma pessoa de reconhecer e abrir mão de certo conjunto de valores e comportamentos que geram prejuízos para ela, porque eles também geram algum conforto muito desejável para aquela personalidade (e podem assim ser “justificados”), mas que não obstante a incapacitam de evoluir.

Por exemplo, uma pessoa pode ser extremamente rígida e controladora na maioria dos aspectos da sua vida, porque esta rigidez aparentemente torna as coisas mais fáceis e previsíveis para ela, e assim a deixam aparentemente mais segura e tranquila. Mas esta rigidez paralisa a sua vida e a deixa frustrada no íntimo. Não reconhecendo a si mesma e o seu padrão controlador como a causa da sua própria frustração, este sentimento se torna uma raiva injustificada do mundo e das pessoas, ou algum tipo de depressão “inexplicável”. A pessoa é incapaz de fazer as mudanças necessárias porque está tão intimamente comprometida com sua fantasia pessoal de controle que esta se torna a lente por meio da qual ela vê a si mesma e o mundo. Este viés do seu olhar é o seu ponto cego.

A pessoa precisa de alguém para ajudá-la que, ao mesmo tempo que a conheça intimamente, não esteja comprometida com ela em nenhum ganho pessoal e possa vê-la com objetividade, livre dos pontos cegos. Esta pessoa é o professor.

O professor deve fazer o papel da própria pessoa livre do ponto cego. É como se o professor fosse a pessoa lúcida, aquela que de fato poderia se ajudar. E para isso existe um relacionamento muito específico a ser construído. É necessário que exista a intimidade. A pessoa não pode querer fazer um papel para o professor de aluno perfeito ou pessoa semi-iluminada, o que é muito comum de acontecer, pois desta forma não há como o professor enxergar o problema real. O professor, por sua vez, não pode estar de nenhuma maneira comprometido com o aluno senão como alguém que quer ajuda-lo a superar suas dificuldades. Se o professor quiser simplesmente agradar o aluno – o que também é comum de acontecer, principalmente quando há algum grau de dependência financeira em jogo – ele não o estará ajudando. Por fim, deve haver muita shraddha, confiança por parte do aluno, já que sua tendência será relutar em acatar as instruções do professor, que serão necessariamente desconfortáveis para aquela personalidade que quer muito continuar na zona de conforto.

 

 

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