Qual o significado do Mahalakshmi Gayatri – Verso dedicado a Deusa da Riqueza?

Om Mahalakshmyai ca vidmahe Vishnu patnyai ca dhimahi .
Tanno Lakshmih prachodayat ..

Significado:

Nós meditamos em “Mahalakshmi” a consorte de Vishnu,
que ela abençoe nossas mentes.

Esse é um verso popular conhecido como mahalakshmi gayatri. Gayatri é o nome da métrica na qual esse verso foi composto, assim como temos no português o soneto, gayatri é o nome dessa métrica que contém 24 sílabas. Toda deidade, aspecto divino presente na cultura hindu, possui um gayatri. Esse verso é composto a partir de pequenas características marcantes da deidade em questão, tal qual descrita nos puranas, histórias da mitologia hindu. Esse gayatri foi composto para Mahalakshmi e ele a descreve como a esposa de Vishnu, aquele que sustenta a criação. No contexto do autoconhecimento e do significado do mahalakshmi gayatri, Vishnu é o criador e Lakshmi simboliza o seu poder shakti, a matéria prima da criação, os recursos e a riqueza. A idéia é que a consciência por si só não cria, ela precisa das bênçãos da sua esposa Laskshmi, o poder criativo.

Ritualisticamente um verso como esse é utilizado como parte de rituais complexos, onde envolvem outros cantos como o Srii Suktam ou o Purusha Suktam e portanto ele é associado ao Rik veda, onde os mesmos se encontram, contudo ele é uma adição atribuída ao Rshi Brgu e não um mantra dos Vedas. No final desses cantos mais elaborados esse verso é cantado algumas vezes, a razão para esse tipo de procedimento não é estabelecida pela lógica e não deve ser analisada academicamente. Os procedimentos ritualísticos bem como os versos são recebidos pelos Rshis (sábios) em meditação da maneira que devem ser realizados para se obter um determinado resultado. É válido dizer que as práticas para se ter acesso a esse tipo de visualização não são conhecidas atualmente e é dito que o criador provê essa capacidade para as pessoas nos momentos adequados.

A beleza de todo o verso desse tipo, composto em gayatri e atribuído a uma deidade específica, não está apenas na deidade na qual ele se refere, porém no que está sendo pedido. O pedido é que o Criador abençoe nossas mentes. A mente é o indivíduo, é sua história, e o seu futuro depende totalmente de uma mente capaz de decidir de forma adequada. Como a maioria das orações da tradição essa também é uma oração coletiva, realçando o fato de que somos uma única espécie e que não adianta uma pessoa só estar no caminho certo, nossas vidas são interconectadas e, portanto, nós rezamos também uns para os outros. As crianças rezam para os pais decidirem bem suas vidas, os pais rezam para as crianças serem saudáveis, depois as crianças rezam pela saúde dos pais idosos, os pais rezam pela felicidade dos filhos e finalmente os filhos rezam pelos pais que já se foram que não podem mais rezar por eles mesmos. É um ciclo, uma sincronia que se torna expressa em: “ó, MahaLakshmi abençoe nossas mentes”.

Lakshmi por si só é a Deusa da riqueza, da beleza e do poder. Não que o hinduísmo tenha diversos Deuses, mas ele se dá ao luxo de invocar separadamente o aspecto divino que se faz necessário naquele momento. Nesse caso Lakshmi é esse aspecto. Existem diversas formas de riqueza e Lakshmi pode ser usada para invocar as bênçãos divinas em todas essas formas. A primeira bênção é a matéria prima, a comida, o algodão, a madeira, os recursos de toda nossa sociedade. Depois temos os animais, o gado que produz o leite, que trabalha a terra, que produz lã e todos os seus subprodutos. Temos também os minerais, os minérios, as jóias, o ouro e o dinheiro.

Certa vez um padre estava discutindo com um Swami sobre a fé e estava se gabando dizendo que no seu país até mesmo no dinheiro está escrito: “eu creio em Deus”. E ele perguntou se no país do Swami isso também era feito. O Swami respondeu que no seu dinheiro não está escrito isso, porque para eles o próprio dinheiro é Mahalakshmi e Deus não é uma questão de fé. O dinheiro não está separado de Deus, nem nenhuma outra riqueza do mundo. Essa é uma visão completamente diferente e única dessa tradição.

No ocidente é comum associar o dinheiro às buscas mundanas, chegando ao ponto de se acreditar que a espiritualidade não pode ser associada ao dinheiro. Como se houvesse algum tipo de contaminação da relação entre mestre e discípulo quando o mesmo está envolvido. Contudo na sociedade hindu, mesmo nos lugares onde o ensinamento não é cobrado diretamente, os alunos trabalham arduamente para ajudar o professor, o que é chamado de seva. Em alguns casos eles têm que trabalhar mais de 6 meses continuamente para poder pisar na sala de aula. O próprio Veda diz que o aluno depois de ter sido ensinado só pode caminhar para o próximo estágio da vida, se casar e ter filhos, quando ele faz uma doação apropriada ao seu professor e ao local de estudo, afinal de contas durante bastante tempo ele apenas consumiu. Assim a idéia de que o dinheiro e o trabalho são contrários à espiritualidade é falsa. É apenas uma fantasia que é sustentada pelo senso de segurança que o dinheiro dá. Ninguém quer abrir mão dele, é muito fácil dizer que tudo deve ser de graça. Às vezes somos capazes de gastar 50 reais para ir ao cinema, mas não conseguimos investir o mesmo em um aula que tem como objetivo melhorar nossa qualidade de vida. Isso é apenas uma inversão de valores. Se olharmos objetivamente, ser capaz de pagar pelas aulas e contribuir para manutenção da tradição onde se estuda é um sinal de maturidade e valorização do conhecimento. Essa atitude é importante no caminho espiritual e muito natural. Estamos consumindo e portanto contribuímos, simples assim.

E a riqueza não pára no dinheiro, temos o conhecimento, a tecnologia, a capacidade de avaliar apropriadamente e decidir nossas ações. Em outra esfera temos os filhos e a família que também são vistos como Lakshmi e de certa maneira são mais poderosos que o dinheiro e outras formas de riqueza. O valor de ser um pai, de poder criar um filho e ter uma família é superior ao que o dinheiro pode dar. Inclusive, se o dinheiro não for utilizado corretamente, ele afasta a família e o indivíduo não fica satisfeito e em paz.

Por fim, Laksmi é a riqueza, os recursos em todas essas esferas que são utilizados na nossa vida. Como todo recurso ele tem um propósito independente dele mesmo, por isso a riqueza, Lakshmi, é a esposa de Vishnu e está servindo a ele. Essa é a maneira correta de se ver a riqueza. Quando a sua riqueza serve a você, mesmo que você tenha pouco, você é um Swami, um mestre, e ela vira “um a mais”, um luxo, e com ou sem ela você fica em paz. Por outro lado, quando você serve à sua riqueza, mesmo que você tenha muito, você se torna um escravo. Trabalha sem parar, para garantir seus desejos, que são sem fim e em longo prazo se torna um personagem coadjuvante da sua própria história. Nesse caso apesar de existir uma satisfação aparente, luxo e beleza, não existe uma paz real.

Algumas pessoas vão concluir e defender que dinheiro não traz felicidade e que, portanto, sua busca deve ser abandonada, mas essa também é uma posição infantil. Se adição de dinheiro não ajuda a pessoa a ser feliz a subtração menos ainda. Antes a pessoa era insatisfeita com conforto e agora em nome da espiritualidade ela abandonou tudo e passou a ser a mesma pessoa insatisfeita, porém com desconforto, sem casa, sem família e dependendo das outras. Essa não é uma atitude inteligente. A riqueza é Lakshmi e deve ser respeitada, sendo usada corretamente é uma ferramenta para se viver bem, com uma vida que conduza à descoberta do eu que está livre de confortos e desconfortos.

A riqueza é aquilo que deve ser utilizado para se viver melhor e isso envolve muito mais que o dinheiro e os objetos. Implica em ter uma vida íntegra, em ter valores que nos dêem a liberdade de ir e vir no mundo, sem ter que ficar evitando pessoas ou se desgastando para sustentar mentiras. Implica em aceitar nossas emoções, o passado e reencontrar aquela criança dentro de si, espontânea, capaz de sorrir de graça e dar amor às pessoas. E por que não ter a humildade de aceitar os nossos próprios limites para resolver os problemas?  Em conseguir buscar ajuda? Sem dúvida, essa é uma grande riqueza, que nos falta hoje em dia. Quanto mais sutil a riqueza, mais valiosa ela fica, porque não tem nada mais valioso do que a paz, que é o que há de mais sutil na nossa mente. Por isso essa paz é vista como a riqueza das riquezas. Todas as nossas ações culminam em encontrar essa pessoa simples e feliz, ela é a riqueza das riquezas, sem ela nenhuma outra riqueza tem valor real. Isso não é apenas algo para ser entendido intelectualmente, é algo para ser visto como verdadeiro nos nossos corações, é o próprio propósito do yoga.

Assim, esse é o significado do mahalakshmi gayatri: “óh MahaLakshmi você que está na forma de toda essas riquezas, que é a esposa de Vishnu, por favor abençoe nossas mentes e permita que encontremos a paz que é a riqueza das riquezas.”

 

Showing 2 comments
  • Sonia Maria Mattoso de Moura
    Responder

    Olá Jonas, tudo bem? gosto muito do site, tomamos conhecimento para evoluirmos um abraço fraterno.

    • admin
      Responder

      Obrigado Sonia, fico feliz que esteja gostando. abraços e harih om Jonas

Leave a Comment

Start typing and press Enter to search