Qual a visão de um sábio?

Desde início dos tempos o conceito do sábio vem caminhando com a tradição védica e a humanidade. Em sânscrito ele é referido pelo termo jnani, que nada mais é do que “sábio”, aquele que possui um conhecimento. Porém esse significado já está devidamente deteriorado e o que ele realmente significa permanece um mistério.

Ao longo do tempo suas interpretações geraram vários outros termos como o “iluminado” por exemplo. A conexão entre conhecimento e luz faz do sábio “aquele que possui a luz do conhecimento”, o iluminado. Em outros contextos o sábio é visto como uma pessoa perfeita, pois está além dos problemas do mundo e além das suas emoções e desejos. E ainda, quando o conhecimento espiritual é confundido com algum tipo de prática energética, o sábio se torna um milagreiro.

Essas interpretações são apenas projeções das nossas próprias fantasias. Como se houvesse algo de errado com nossas emoções por exemplo, ou ainda, como se fosse possível uma infância sem traumas. Quando percebemos nossa mente com defeitos, o sábio se torna uma pessoa livre desses defeitos, simples assim, apenas uma projeção.

Gostaríamos de não ser limitados por esse mundo, em termos de vida nas coisas mais simples como as leis da natureza. Todos temos o desejo de voar, de viver indefinidamente e de não adoecer e não morrer. Assim o sábio tem que subir aos céus, pular a morte, voar e modificar todo o universo para evitar o seu sofrimento e provar para as pessoas quem ele é fazendo aquilo que elas fantasiam.

Em outro contexto, não encontrando resposta para vida, acreditamos que alguém precise vir nos salvar e a resposta para vida seja algum tipo de dom divino que só os escolhidos recebem sem uma causa definida. Então naturalmente projetamos uma pessoa evoluída espiritualmente, algum tipo de escolhido, alguém que possui que possui um dom especial que faz dele algo que pode me salvar. Tentamos nos tornar o escolhido dessa pessoa especial também.

Tal qual for nossa interpretação do homem perfeito e das imperfeições do mundo, da mesma maneira será nossa visão sobre o sábio ou a pessoa que  tenha atingido seu objetivo espiritual. Contudo a luz dos Vedas essas são apenas fantasias. Nossa mente não possui defeitos, muito pelo contrário, tem uma ordem bem definida de funcionamento estudada pela psicologia. “Voar” não me faz melhor que ninguém, no máximo me faria chegar mais rápido em algum lugar ou me tornaria uma pessoa especial. Sinceramente, adquirir super poderes para poder se sentir “alguém” ou como uma tentativa de vencer a corrida do mundo com “super-facilidades”, não é uma “evolução espiritual” e sim uma evolução material através da espiritualidade.

 Nos Vedas o sábio é definido apenas pela presença de uma visão chamada de Sarvabhauma Drsti. Uma visão de unidade de todo o universo que rompe com seu conceito de individualidade e produz conseqüências desejáveis na sua personalidade como a expansão das emoções e liberdade da morte e do medo.

 Para entender essa visão é necessário dissociá-la do estilo de vida e da cultura dos alunos, pois vivemos em uma época de preconceitos e disputas religiosas. Vedanta por princípio não é uma religião nem se opõe a nenhuma delas, mas recebendo esse conhecimento associado ao hinduísmo temos que limpá-lo das influências culturais se não quisermos ser mau interpretados. Na visão dos vedas “sarvasya bhumikasu drstih vartate” – “em todos os níveis, em todas as culturas e em qualquer estilo de vida esse conhecimento está disponível”. Não é necessário ser dessa ou daquela forma, cortar o cabelo, ou cultivar hábitos diferentes, basta ter um professor e estudar com dedicação.

É natural que nossos mestres dêem uma ênfase para o estudo porque esse conhecimento é o objetivo de toda espiritualidade que inclui os rituais e meditações. No entanto, sua visão de estudo inclui também a vida cotidiana e normal de uma pessoa na sociedade. É dito que a maior ascese, o maior “tapas”, ou disciplina espiritual que pode ser feita é descobrir nosso papel na sociedade, cumprir as responsabilidades e se tornar um membro que faz diferença na sua família e para sociedade em geral. Definitivamente um grande desafio para todos.

Tendo essa base de uma vida inteira, com trabalho, relacionamentos e todas as respectivas emoções envolvidas, a visão do sábio pode se tornar tangível e completa. Por isso que quando pessoas seguem para uma vida monástica precipitadamente elas muitas vezes são direcionadas ao trabalho e a convivência com as pessoas. Existe uma etapa a ser preenchida com nossa família e sociedade para se descobrir essa visão.

A visão é a unidade do universo. O entendimento da não separação de todos os seres. A visão de que todo o universo é um único ser vivo e que as divisões são apenas aparentes. Como em um sonho onde uma única consciência aparece como vários personagens; ou como no nosso corpo que possui milhares de células, que são seres vivos independentes e ainda assim que compõe um único ser vivo.

A visão do sábio, que faz jus a esse temo, não é mais um elemento de separação que faz dele uma pessoa especial. É um entendimento de que ele não é esse corpo, nem essa mente e não está limitado pelo tempo, nem pelo espaço, não evolui, não sobe, nem desce. É a visão do eu como a causa e a realidade imutável do universo. Lembremos que essa visão é algo a ser estudado, entendido e assimilado, com um professor para evitar fantasias, pois o entendimento não deve produzir um “sábio iluminado” e sim acabar com a nossa necessidade de se tornar um.

Leave a Comment

Start typing and press Enter to search