Quebrando o tabu da devoção

No século XXI ao se escutar a palavra “devoção”, encontramos certa repulsa no coração. Isso é totalmente compreensivo e até uma atitude sensata, diante de toda uma história de “exploração religiosa” que a humanidade viveu e vive até hoje. Quanto sangue já foi derramado por uma causa religiosa, quanto já não fomos perseguidos devido a diferenças culturais e de crenças? Vivemos um momento da humanidade onde a exposição de um valor religioso é motivo de vergonha, medo ou simplesmente de um embaraço pois existe um preconceito generalizado sobre esses temas. Palavras como: fé, devoção, Deus, oração, regras e mandamentos são ditas com inibição e quando escutadas acendem um alarme interno de “perigo” – “Alguém pode estar tentando me converter, pegar meu dinheiro ou ditar regras de como eu deva viver”.

Assim a defesa contra o tema da devoção é esperada e natural nas nossas condições sócio culturais. Contudo, será a devoção exclusivamente uma ferramenta de dominação da humanidade? Existe algo que podemos obter através da devoção?  Por que alguns líderes espirituais que parecem não estar associados a nenhum grupo religioso em particular falam tanto nesse termo?

Para entender a importância da devoção nas nossas vidas é preciso primeiro notar que existem de fato dois tipos de devoção:  a devoção religiosa e a devoção espiritual. Esses nomes não encontraremos no dicionário, eles só fazem referência a origem e a natureza da devoção, como veremos a seguir.

A devoção religiosa tem como base a fé, um conjunto apresentado de crenças e muitas vezes se resume a uma confiança cega expressa através de conceitos como: “o que vem de Deus não se questiona”, “não precisamos pensar, precisamos acreditar”, “eis um mistério da fé” e assim por diante. A devoção religiosa é expressa através de rituais e cantos, algumas vezes acompanhados de música, também chamados de louvor. Essa entrega criada nesse tipo atividade, que tem como base um conjunto de crenças e histórias sobre Deus em alguma forma é chamado de devoção religiosa. 

Em um determinado contexto ela tem o seu valor e talvez seja um começo de uma busca, mas é muito perigosa. O contato com uma entrega, se ver como um devoto e entregar os problemas a Deus, traz um alívio ao coração, porém se essa entrega é baseada na fé e na crença ela desconsidera nossa capacidade de raciocinar e provoca a médio prazo o que pode ser chamado de um doutrinamento mental. Todo doutrinamento leva uma pessoa a não questionar, não transformar o que lhe foi apresentado em um conhecimento próprio, tem a capacidade de destruir nossa humanidade e por isso eles são perigosos e indesejáveis. Em nome de Deus um homem é capaz de matar e ir contra os mesmos valores que ele mesmo busca. Essa fé ou devoção cega, não é saudável. 

De fato devoção não precisa ter como base um conjunto de crenças e muito menos estar restrita a um conjunto de atividades de extroversão emocional coletiva, como canto e dança. Isso vamos descobrir com o segundo tipo de devoção, a devoção espiritual.

Na devoção espiritual, a palavra espiritual não tem nada a ver com espirito  ou espiritismo diretamente. Ela é usada para se referir a algo que não pertence a nenhum tipo ou grupo específico de pessoas, esse termo aponta a conexão de todos com Deus e os temas fundamentais da vida, sem uma nomenclatura que provoque a divisão entre pessoas. “Espiritual”, metaforicamente se refere aquilo que é natural em todo ser humano, “que vem com o espírito” essa é uma forma positiva do uso dessa palavra. 

Quando vemos pela primeira vez uma queda d’’água enorme como as “cataratas do Iguaçu”, não tem quem não se encha de emoção e tenha seu coração lavado pelas águas que ali caem. Essa devoção é um sentimento que surge quando tocamos em um lado natural da nossa humanidade da nossa relação com o todo, com o universo. A grandeza das cataratas fazem nossa individualidade ficar pequenininha, vemos como o mundo é tão grande e podemos por alguns instantes se ver como parte desse rio imenso que é o universo.

Esse segundo tipo de devoção que estamos nos referindo como devoção espiritual, ela não é ameaçadora, podemos dizer que estamos inclusive em busca dela. Ela traz um prazer diferente do que ficar cantando em catarse, não por sua intensidade pois ambas as atividades podem ser muito fortes porém pela sua origem e consequência. Ela não envolve crenças nem pertencimento a grupos sociais e religiosos e de fato ela ocorre quando somos capazes de largar todos os conceitos que carregamos sobre nós mesmos, nosso ego.

Diferente da devoção religiosa ela não reforça divisões e pode ser facilmente compartilhada com todos a nossa volta sem a necessidade de conversão religiosa ou uma distração deliberada dos sentidos como a música alta ou a dança. Ela é compartilhada no silêncio e ainda assim é muito alta em nossos corações.

devoçãoA devoção espiritual é natural a todo ser humano e para uma pessoa com certa maturidade espiritual ocorre espontaneamente na sua vida. A devoção acompanhada dessa maturidade necessária para apreciá-la faz parte do processo de autoconhecimento. Ela é o verdadeiro objetivo por detrás de todos atos ritualísticos. O pensar e questionar não a enfraquece, ela se torna mais forte quando pensamos na grandeza de todo esse universo. Todo grande cientista se descobre um grande devoto. Basta analisar e estudar um pouco mais sobre as grande mentes como Einstein, Platão  e outros; que descobrimos como seu conhecimento se expressa na forma de uma devoção natural a Deus que criou um universo tão complexo e tão belo como esse.

A devoção espiritual, a verdadeira devoção, não está contida nos limites do templo, nem nas músicas dos santos. Nessa devoção o templo é o nosso corpo, o altar é o universo a nossa frente, a deidade de adoração são todos os seres vivos,  não oferecemos música, nem canto entregamos o suor e a dedicação. E as flores são nossas lágrimas de alegria ou de tristeza.

A descoberta dessa devoção é o que apontam os nossos homem santos e é aquilo que contribui para o propósito de nossas vidas, uma devoção saudável, algo que para ser descoberto por todos nós. Que possamos encontrá-la rápido, estamos precisando.

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  • Sonia Andrade
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    Que bonito Jonas
    “Nessa devoção o templo é o nosso corpo, o altar é o universo a nossa frente, a deidade de adoração são todos os seres vivos, não oferecemos música, nem canto entregamos o suor e a dedicação. E as flores são nossas lágrimas de alegria ou de tristeza.”
    Om

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