Rāmanavamī 2018

Seguindo o estilo dos grandes mestres de Vedānta, a começar por Ādi Śaṅkara, Śrī Swāmi Dāyānanda Sarasvatī foi, além de um grande intelectual, um talentoso compositor de poesias devocionais.

Em homenagem ao dia de Rāma (Rāmanavamī) de 2018, comemorado em 25 de março, apresentamos abaixo uma tradução em português da linda composição do Swāmiji chamada Rāmaṃ Bhaje, em louvor de Śrī Rāma.

Neste link você pode ouvir a canção na voz do prestigiado Maharājapuram.

Abaixo, a letra com significado palavra por palavra seguida de um breve comentário.

rāmaṃ bhaje śyāmaṃ manasā
rāmaṃ bhaje śyāmaṃ vacasā ॥

sarvavedasārabhūtaṃ
sarvabhūtahetunāthaṃ ॥

vibhīṣaṇāñjaneyapūjitacaraṇaṃ
vaśiṣṭhādimunigaṇaveditahṛdayaṃ ॥

vaśīkṛtamāyākāritaveṣaṃ
īśaṃ pureśaṃ sarveśaṃ ॥

nīlameghaśyāmalaṃ
nityadharmacāriṇaṃ ॥

daṇḍinaṃ kodaṇḍinaṃ
durācārakhaṇḍanaṃ ॥

janmamṛtyujarāvyādhi-
duḥkhadoṣabhavaharaṃ ॥

rāmaṃ bhaje śyāmaṃ manasā
rāmaṃ bhaje śyāmaṃ vacasā ॥

rāmaṃ bhaje śyāmaṃ manasā
rāmaṃ bhaje śyāmaṃ vacasā ॥

rāmamRāma; bhaje – eu reverencio; śyāmam – negro; manasā – com a mente; rāmamRāma; bhaje – eu reverencio; śyāmam – negro; vacasā – com a fala

Eu reverencio Rāma, o negro, com a mente. Eu reverencio Rāma, o negro, com a fala.

O nome Rāma deriva do raíz verbal “ram”, deleitar, contentar, aprazer. Rāma é aquele no qual os yogins, as pessoas dotadas de discriminação, se deleitam, rāmante.

Manasā, com a mente, eu reverencio Rāma, a realidade que, por ser insondável e imensurável, inacessível aos sentidos, é chamada de śyāmam, negra. Rāma é escuro como o oceano abissal.

Com a mente preparada, contudo, os yogins compreendem silenciosamente a sua natureza suprema e, dessa compreensão, derivam grande prazer.

Então, através das palavras, vacasā, esses sábios convertem em versos inspirados o entendimento que tiveram, e, assim, também reverenciam Rāma com o órgão da fala, descrevendo suas qualidades.

Na presente composição, Śrī Dāyānandaji o descreve da seguinte maneira:

sarvavedasārabhūtaṃ
sarvabhūtahetunāthaṃ ॥

sarva-veda-sāra-bhūtam – Aquele que está na forma (bhūtam) da essência (sāra) de todos os Vedas(sarva-veda); sarva-bhūta-hetu-nātham – Aquele que é o Senhor (nātham) da causa (hetu) de todos os seres (sarva-bhūta)

(Eu reverencio Rāma), aquele que está na forma da essência de todos os Vedas e que é o Senhor da causa de todos os seres.

Rāma é Vedasāram, a essência de todos os Vedas. É aquilo que deve ser compreendido como o significado final de todas as Upaniṣads. É, também, aquilo que as pessoas esperam ganhar através da realização de todos os rituais védicos.

Rāma, a felicidade visada como a meta final da vida de todos os seres, é, também, a causa mesma dessas vidas.

Na verdade, se pensarmos na causa material do nascimento dos seres no universo – quer pensemos em termos de Big-Bang, ou da combinação das três guṇas com os cinco elementos – Rāma está além e é superior mesmo a essa grande causa. Ele é nātham, o senhor e mestre, da causa, hetu, de todos os seres.

vibhīṣaṇāñjaneyapūjitacaraṇaṃ
vaśiṣṭhādimunigaṇaveditahṛdayaṃ ॥

vibhīṣaṇa-āñjaneya-pūjita-caraṇaṃ – Aquele cujos pés (caraṇam) são adorados (pūjita) por Vibhīṣaṇa e Añjaneya; vaśiṣṭha-ādi-muni-gaṇa-vedita-hṛdayaṃ – Aquele cujo coração (hṛdayam) é conhecido (vedita) pelos grupos (gaṇa) de sábios (muni) começando por Vaśiṣṭha (vaśiṣṭha-ādi).

(Eu reverencio Rāma), aquele cujos pés são adorados por Vibhīṣaṇa e Añjaneya, e cujo coração é conhecido pelos grupos de sábios começando por Vaśiṣṭha.

Rāma é reverenciado pelos grandes homens e mulheres do mundo, simbolizados aqui nas menções de Vibhīṣaṇa e Añjaneya.

Vibhīṣaṇa, cuja história é contada no épico do Rāmāyaṇa, era irmão do inimigo de Rāma, Rāvaṇa. Mesmo assim, era alguém de grande valor e foi contra o sequestro de Sītā (esposa de Rāma) pelo seu irmão. Seguindo o dharma, tornou-se um devoto de Rāma e o ajudou a derrotar Rāvaṇa.

Āñjaneya (o filho de Añjanā) é outro nome do macaco Hanumān, famoso no Rāmāyaṇa pelos grandiosos feitos de bravura, inteligência e devoção por Rāma.

Apesar de ser conhecido por todos, na sua forma externa, como um homem belo e forte, defensor da justiça e portador de um grande e poderoso arco, esposo de Sītā e filho de Daśaratha, o coração de Rāma, a fonte mais íntima da sua existência, só é conhecida pelos sábios, a começar pelo grande Vāsiṣṭha, de quem o próprio Rāma foi discípulo.

vaśīkṛtamāyākāritaveṣaṃ
īśaṃ pureśaṃ sarveśaṃ ॥

vaśīkṛta-māyā-kārita-veṣam – Aquele cujo aparecimento (veṣam) foi engendrado (kārita) tendo o poder de Māyā (māyā) sob controle (vaśīkṛta); īśam – Aquele que tem tudo sob controle; pureśam – o Senhor da cidade; sarveśaṃ – o Senhor de todas as coisas.

(Eu reverencio Rāma), aquele cujo aparecimento foi engendrado tendo o poder de Māyā sob controle, aquele que tem tudo sob controle, que é o Senhor da cidade e o Senhor de todas as coisas.

Rāma, na sua manifestação exterior, corpórea, cuja inspiradora vida é conhecida pelas pessoas através da narrativa do Rāmāyaṇa, não nasceu, como o resto de nós, por força do karma.

Sua aparição, veṣa, se deu por vontade própria, tendo o poder de manifestação cósmica (Māyā) nas suas mãos, assim como um mágico manifesta sua mágica sem estar nem por um só momento submetido a sua ilusão.

Por isso ele é chamado de Īśa ou Īśvara, aquele que tem tudo sob controle.

Ele é Pureśa, o Senhor da cidade (pura), significando o Senhor do corpo, pois é bem conhecida nos Vedas a analogia do corpo com uma cidade murada de nove portões (as duas narinas, os dois olhos, os dois ouvidos, a boca, o ânus e o órgão genital).

Rāma é a pessoa que por trás dos olhos, que vê o que os olhos veem. É a pessoa por trás dos ouvidos, ouvindo o que os ouvidos ouvem. Ele é a pessoa por trás da própria mente, tornando evidente a presença dos pensamentos.

nīlameghaśyāmalaṃ
nityadharmacāriṇaṃ ॥

nīla-megha-śyāmalam – Aquele que é negro (śyāmalam) como uma nuvem (megha) azul escura (nīla); nitya-dharma-cāriṇam – Aquele que segue (cāriṇam) o dharma eterno (nitya)

(Eu reverencio Rāma), aquele que é negro como uma nuvem azul escura e que sempre segue o dharma eterno.

Tudo que Rāma faz é dharma, é correto e justo, pois suas ações não são impelidas pela carência, pela ânsia de tornar-se pleno e feliz. Rāma já é tudo em plenitude. Portanto, tudo que ele faz é o que deve ser feito. O sábio que conhece Rāma age da mesma maneira.

daṇḍinaṃ kodaṇḍinaṃ
durācārakhaṇḍanaṃ ॥

daṇḍinam – Aquele que segura o bastão (daṇḍa); kodaṇḍinam – Aquele que segura o arco (kodaṇḍa); dur-ācāra-khaṇḍanam – aquele que pune (khaṇḍanam) a má (dur) conduta (ācāra)

(Eu reverencio Rāma), aquele que segura o bastão, que segura o arco e que pune a má conduta.

As ações de Rāma, contudo, nem sempre são agradáveis. Ele é chamado de daṇḍin, o corretor, ou, literalmente, “Aquele que segura um bastão”. Também é chamado kodaṇḍin, “Aquele que segura o arco”. Ambas as imagens são símbolos para a realidade de que Rāma é aquele que, dando os resultados adequados para todas as ações, dá sofrimento para aqueles que se enveredam por más condutas, durācāra.

janmamṛtyujarāvyādhiduḥkhadoṣabhavaharaṃ ॥

janma-mṛtyu-jarā-vyādhi-duḥkha-doṣa-bhava-haram – Aquele que remove (haram) as mazelas (doṣa) da existência (bhava), tais como: nascimento (janma), morte (mṛtyu), velhice (jarā), doença (vyādhi) e dor (duḥkha)

(Eu reverencio Rāma), aquele que remove as mazelas da existência, tais como nascimento, morte, velhice, doença, e dor.

Por fim, é a graça de Rāma que remove as mazelas da existência: nascimento, morte, velhice, doença e dor. Todas elas são transcendidas por uma pessoa no mesmo instante em que ela compreende a natureza de Rāma.

Para tanto, que Ele nos abençoe.

Hare Rāma!

Comments
  • Karla
    Responder

    Muito enriquecedor. Grata por compartilhar.

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