Samvada: uma conversa entre professor e aluno

A Tradição Védica fala sobre quatro tipos de conversa que uma pessoa pode ter com outra. É interessante conhecermos as distinções entre elas, não por mera curiosidade, mas para sabermos como os três primeiros tipos se distinguem do quarto, o mais importante para nós: uma conversa entre professor e aluno.

O primeiro tipo chama-se vada, uma conversa que ocorre entre duas ou mais pessoas que estão querendo chegar a uma conclusão sobre alguma coisa. Todas as pessoas envolvidas são iguais no que se refere ao conhecimento do assunto em questão. Nenhuma sabe mais do que a outra, e elas estão sinceramente buscando aumentar seu conhecimento através da troca mútua. Qualquer grupo de estudo entre estudantes de alguma matéria entra na definição de vada.

Jalpa, ou controvérsia, o segundo tipo, é uma conversa inútil (e potencialmente perigosa) que ocorre entre duas pessoas que já têm uma opinião formada sobre um assunto, e estão entusiasmadamente querendo converter um ao outro às suas respectivas opiniões. O problema é que nenhuma delas está disposta a abrir mão da sua opinião, com a mesma convicção apaixonada com que quer convencer o outro. Podemos imaginar a encrenca que isso pode gerar! Qualquer conversa inter-religiosa, em geral, entra na definição de jalpa, ainda que jalpa também seja comum em assuntos mundanos como política e futebol. Não é à toa que a boa e velha sabedoria popular diz que “futebol, religião e política não se discutem”.

O terceiro tipo de diálogo, chamado vitanda, também não leva a nada. Trata-se de uma conversa entre duas pessoas na qual uma delas sempre discorda da outra, não interessando o que a outra diga. Em português, chamamos isso de picuinha. Ela acontece quando há algum problema pessoal envolvido entre as duas partes. Uma pode invejar o conhecimento da outra, por exemplo, levando-a a tentar rebaixar a outra achando defeito em tudo que ela diz.

O quarto tipo de conversa chama-se samvada, e é a conversa que se estabelece entre um professor e um aluno. Ou seja, samvada é um ensinamento. O samvada mais famoso da história da humanidade (pelo menos no que considera a Tradição Védica) é o diálogo entre Krishna e Arjuna, documentado na Bhagavad-Gita. Alguns momentos desse diálogo nos revelam certas atitudes envolvidas no relacionamento entre professor e aluno que são importantes para a transmissão do conhecimento e, por isso, transcreveremos aqui dois desses momentos. O primeiro revelará uma atitude da parte do aluno e, o segundo, da parte do professor.

No início do terceiro capítulo, Arjuna está confuso. Krishna havia louvado o conhecimento como meio de liberação e, ao mesmo tempo, incitava-o à ação, à luta. Arjuna sabia que ganhar ou perder guerra eram igualmente inúteis como meios para a felicidade e, portanto, desejava algo além da ação para ficar em paz. Esse algo além era o conhecimento, que Krishna havia apresentado em tantas palavras no segundo capítulo. Arjuna não podia entender a razão pela qual Krishna insistia na batalha, ao invés de desistir dela e sair com Arjuna para a floresta, para ensiná-lo sobre Brahman, a verdade imutável. Tendo essa dúvida, ele dirige a Krishna as seguintes palavras:

– “Vyamishrena iva vakhyena buddhim mohayasi iva me – Com palavras aparentemente (iva) contraditórias você aparentemente (iva) ilude minha mente.” (Gita – 3-2).

As palavras de Arjuna aqui indicam a atitude do aluno em um diálogo com o professor. Um samvada implica que uma pessoa (o aluno) coloca a outra (o professor) em uma posição superior à sua, confiando no conhecimento da outra e confiando também que ela tem toda a capacidade e boa vontade para lhe ensinar. Apenas essa atitude explica as palavras de Arjuna nesse verso. Ele sabia que Krishna não estava se contradizendo, porque tinha confiança de que Krishna conhecia muito bem o assunto sobre o qual falava. Portanto, Arjuna usa o termo “aparentemente”: “Com palavras aparentemente contraditórias

Em um samvada, sempre que o aluno não entende algo, ele toma para si a responsabilidade pelo não entendimento, não por etiqueta, mas sabendo que é muito mais provável a limitação estar na sua mente do que na mente daquele que o ensina.

Arjuna conhecia também a intenção de Krishna ao lhe ensinar e, portanto, também diz: “Você aparentemente está me iludindo”. Um aluno nunca pensa que o seu professor o esteja iludindo de propósito. Como, pensando assim, um aluno poderá acreditar nas palavras do seu professor quando ele fizer a afirmação aparentemente mais absurda do mundo: ‘Tat tvam asi – você é Ishvara, a causa do mundo”?

Quanto à atitude do professor em um samvada, ela é revelada por Krishna no final da Gita em dois momentos. No primeiro, ele revela o motivo pelo qual está ensinando Arjuna:

– “Ishto’si me drdham iti tato vakshyami te hitam – Você é definitivamente querido por mim, portanto vou falar a você o que é bom”.

Por que Krishna está ajudando Arjuna a entender o que é o melhor para a vida dele? Porque Arjuna está pagando? Porque Krishna quer alguma coisa em troca? Não, mas simplesmente porque Arjuna é querido por ele. Um professor não tem nenhuma intenção ao ensinar a não ser ajudar o aluno a se livrar do sofrimento. Só assim ele pode comunicar efetivamente o que deve ser comunicado, inclusive aquelas coisas difíceis de serem ouvidas pelo aluno mas que são definitivamente para o seu bem.

O segundo momento que revela a atitude do professor vem no verso 63 do último capítulo, no qual Krishna diz a Arjuna:

– “Vimrshya etat asheshena yatha icchasi tatha kuru – Considerando completamente este (ensinamento), faça como você desejar.

Tendo ensinado o que considera adequado, o professor não tem qualquer apego quanto àquilo que o aluno decidirá fazer da sua vida. O ensinamento de Yoga e Vedanta visa passar uma visão, e tornar o aluno alguém completamente independente e capacitada. Um verdadeiro professor, em um samvada, nunca aconselhará o aluno sobre o que ele deve fazer, mas tentará fazer o aluno entender certas realidade a partir das quais ele mesmo decidirá.

Podemos contemplar, a partir dessas passagens, como é bela a relação de carinho e respeito por parte de professor e aluno em um samvada. Que ambos professor e aluno possam sempre buscar inspiração nestes versos!

Showing 2 comments
  • mauadleis@terra.com.br M
    Responder

    Eu saúdo a linhagem de mestres que começa com o Senhor Shiva , passa por Shankara e vai até meu mestre. _/|_

  • rodrigocfranco.usp@gmail.com R
    Responder

    Om saha navavatu
    saha nau bhunaktu
    saha viryankaravavahai
    tejasvinavadhitamastu ma vidvisavahai
    Om santih santih santih

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