Shakespeare e o Corpo Causal

Ninguém duvida que possui um corpo físico. Físico significa extenso, algo que ocupa um determinado lugar no espaço. Algumas pessoas podem se enganar com relação ao volume de espaço que seus corpos físicos realmente ocupam: uma pessoa com o distúrbio conhecido como anorexia, por exemplo, acha que seu corpo ocupa espaço demais, ainda que ela possa achar isso escondida atrás de uma vara de pescar; mas, de qualquer modo, ela não se engana quanto ao fato de possuir um corpo física, ocupando algum espaço.

Tampouco alguém dúvida que possui, além do corpo físico, algo que anima esse corpo. Um corpo vivo se diferencia de um corpo morto pela presença, no primeiro, do chamado corpo sutil, que lhe permite o movimento, a percepção sensível, a emoção, o raciocínio, a imaginação, a memória e todo o resto da vida interior de um sujeito. Esse corpo é chamado de sutil porque não ocupa lugar no espaço. Pode-se, por acaso, localizar fisicamente um pensamento?

As pessoas dizem que o pensamento está na cabeça. Mas, se o pensamento ficasse na cabeça, ocuparia ali algum lugar, de modo que o anatomista que dissecasse os tecidos que a formam acabaria encontrando nela o pensamento, em alguma reentrância do cérebro. Isso é evidentemente um absurdo, que nunca acontecerá. O órgão físico do pensamento pode até ser o cérebro, e pode até ser que não possamos pensar sem as reações físico-químicas operadas por ele. Contudo, cérebro não é o fenômeno do pensamento e o fenômeno do pensamento não está no cérebro, pois, se estivesse, poderia em algum lugar nele ser encontrado, mas não o é; e, certamente, também não o será em algum outro lugar – em alguma ruga do cotovelo ou algo do tipo. Portanto, o pensamento, a mente, que chamamos em Vedanta de corpo sutil, não está em lugar nenhum, não ocupa lugar no espaço. O corpo sutil tem uma duração (existe no tempo), mas não tem extensão.

Até aí, tudo vai bem, tediosamente bem. O que constitui um indivíduo é a conjunção de um corpo físico com um corpo sutil, e daí? E daí que Vedanta diz que existe, além desses dois corpos, um terceiro, necessário para a nossa experiência, chamado corpo causal. Aqui as coisas ficam mais interessantes.

O corpo causal é, basicamente, a ignorância, aquilo que não está, ainda, manifesto como sutil ou físico. Sem este “ainda não” não haveria experiência do físico ou do sutil. Não se trata de uma crença, mas de uma exigência necessária para explicar até as nossas mais banais experiências. Atente para o fato de estar lendo este texto. As palavras se sucedem no seu pensamento uma a uma, e o final do parágrafo ainda não está manifesto para você. É só porque o final do parágrafo ainda não está manifesto que existe para você a possibilidade de ler o texto. Caso você fosse onisciente e o texto inteiro estivesse, num único instante eterno, completamente manifesto para você – junto com todas as outras coisas do universo (sim, ser Deus é maneiro) – isso não seria leitura. Isso não necessitaria de olhos para ver cada palavra, da mente para processá-las, de espaço onde o texto estivesse localizado, de tempo para ter a cognição de cada frase, etc. Ou seja: a ignorância que encobre o que ainda não está manifesto, chamada de corpo causal, é o que dá sentido para algo como olhos, cabeça, cognição. O corpo causal é a causa do corpo sutil e do corpo físico. Portanto, o corpo causal é tão existente quanto os outros dois, ainda que não possua extensão nem duração (não seja manifesto nem no tempo nem no espaço).

Isso é um pouco difícil de compreender, porque a noção arraigada é de que primeiro existe o corpo com os pensamentos, e então o pensamento pensa no futuro como alguma espécie de abstração imaginária, algo que não existe e não é relevante para o presente. Mas o futuro, como o poder ser que insistentemente paira à nossa frente, não é uma abstração do pensamento; antes, você só pensa porque pensar existe como uma possibilidade em aberto. Mas atenção: possibilidade não é coisa alguma. Quando a previsão do tempo diz que pode chover, nós sabemos muito bem que isso significa igualmente que pode não chover. Possibilidade não é uma coisa física ou sutil, é apenas condição de ser do mundo ou, se preferirem, causa do mundo. Não pense no mundo como uma totalidade abstrata; mundo significa você lendo esse texto. Você só pode ler esse texto porque pode igualmente não o ler; pois, caso você só tivesse a possibilidade de o ler, isso já não seria mais possibilidade (potência) e sim ato, e você já o teria lido desde sempre – provavelmente naquele instante eterno da onisciência divina.

Portanto, tudo se resume à não sem razão célebre frase de Shakespeare: “Ser ou não ser, eis a questão”. Ser ou não ser ­– a pura possibilidade, a ignorância, o “corpo causal” – eis questão, a questão por trás de todas as questões: a Questão. Mas como não quero parecer pedante terminando o texto com uma citação de Shakespeare (o que possivelmente me faz parecer ainda mais pedante, mas, ei, eis o mundo!), gostaria de deixar no ar uma pergunta Tostines que, muito além de um mero jogo de palavras, servirá de pedra de toque para saber se você entendeu o texto ou não. Lá vai: você pode ler porque tem olhos ou tem olhos porque pode ler?

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  • Vanda Maria S
    Responder

    Tenho olhos porque posso ler ou, em outra palavras, ver. Posso ver porque biologicamente falando, apresento possibilidades que foram se potencializando nesse espaço que chamo corpo e essas potencialidades para se exprimir necessitavam de “janelas” específicas e complexas. Um cego de nascimento, teoricamente tem a mesmas potencialidades de ver tanto quanto alguém que tenha nascido sem cegueira, no entanto, no cego, a “janela”, por alguma razão, veio com defeito, isto é, fechada.

  • Ana Alice M
    Responder

    Eu tenho olhos (corpo físico) porque posso ler. A experiencia da leitura (corpo causal) é a causa de termos olhos. Essa experiencia é que dá sentido aos olhos.
    Ana Alice M Pereira.

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