Shivaratri 2018 – A Dança Continua

Em respeito e comemoração ao Shivaratri 2018, comemorado na terça-feira de carnaval, 13 de fevereiro, oferecemos uma tradução em português da maravilhosa composição de Swamiji Dayananda Sarasvati, chamada “Bho Shambho”.

Ouça a música aqui.

bho śambho śiva śambho svayambho ।
bho śambho śiva śambho svayambho ॥

gaṅgādhara śaṅkara karuṇākāra।
māmava bhavasāgara tāraka ॥
gaṅgādhara śaṅkara karuṇākāra।
māmava bhavasāgara tāraka ॥

nirguṇaparabrahmasvarūpa ।
gamāgamabhūta prapañcarahita ॥
nirguṇaparabrahmasvarūpa ।
gamāgamabhūta prapañcarahita ॥

nijaguhanihita nitāntānanta ।
ānandātiśaya akṣayaliṅga ॥
nijaguhanihita nitāntānanta ।
ānandātiśaya akṣayaliṅga ॥

bho śambho śiva śambho svayambho ।
bho śambho śiva śambho svayambho ॥
dhimita dhimita dhimi dhimikiṭa kiṭatom ।
tom tom tarikiṭa tarikiṭa kiṭatom ॥

mataṅgamunivara vandita īśa ।
sarva digambara veṣṭita veṣa ॥
mataṅgamunivara vandita īśa ।
sarva digambara veṣṭita veṣa ॥
nitya nirañjana nṛtya naṭeśa ।
īśa sabheśa sarveśa ॥

1) bho śambho – Ó, Śambhu, que gera a felicidade; śiva śambho – Ó Śiva, o auspicioso, Ó Śambhu, que gera a felicidade svayambho – Ó Svayambhu, que existe por si mesmo.

A estrofe introdutória invoca Śiva pelos nomes de Śambhu e Svayambhu, respectivamente “Aquele que gera felicidade” e “Aquele que existe por si mesmo”, na sua própria glória, sem depender de nada externo a si. Ambos os nomes indicam sat cit ānanda, aquela natureza a ser entendida pelas escrituras de Vedānta.

2) gaṅgādhara – Ó Suporte de Gaṅgā; śaṅkara – Ó Benfeitor; karuṇā-ākāra – Ó Compaixão em pessoa; mām ava – proteja-me!; bhava-sāgara tāraka – Ó Você que me faz cruzar o oceano do saṃsāra.

A segunda estrofe faz o pedido da oração: Ó Śiva, proteja-me, mām ava! Você que protegeu a Terra da destruição quando a deusa Gaṅgā (rio Ganges) desceu violentamente dos céus, recebendo o primeiro choque nos seus cabelos emaranhados, e ganhando, então, o nome de Gaṅgādhara, o Suporte de Gaṅgā. Proteja-me, já que você é Śaṅkara, aquele que faz o bem, e cuja forma mesma ākāra, é karuṇā, a compaixão. E como Śiva deve proteger-me? Dando-me mais dinheiro, prazeres, fama? Não, isso não é coisa que se peça a Śiva. Faça-me cruzar o oceano do saṃsāra, do sofrimento sem fim, que não cessa mesmo com todo o dinheiro, prazer e fama que o mundo possa dar. Desse modo, proteja-me!

3) nirguṇa-parabrahma-svarūpa – Ó Você cuja natureza é livre de todos os atributos e de todas as formas de limitação; gamāgamabhūta prapañcarahita – que é livre do universo constituído de seres que vêm e vão.

A terceira estrofe invoca Śiva na sua natureza real, svarūpa, livre daquelas qualidades que atribuímos a ele simbolicamente, como quando o chamamos de Gaṅgādhara, Nīlakaṇṭha (“O de pescoço azul”), etc.

Nirguṇa-parabrahma-svarūpa, significa aquele cuja natureza é nirguṇa, livre de atributos. Śiva não é azul ou preto, grande ou pequeno; não está dentro do mundo nem fora dele; não é bom nem mal; não é o sujeito nem o objeto. Em suma, não é indicado diretamente por nenhuma palavra, e sua natureza só pode ser compreendida pelo silêncio que resta após o hábil desdobramento das palavras de Vedānta, realizado pelo Guru. Essa natureza é parabrahma, a mais grandiosa, livre de todas as formas de limitação. É gama-āgama-bhūta-prapañca-rahita, livre de todo o universo constituído de seres que vêm e vão, que são impermanentes.

4) nija-guha-nihita – Ó você que reside eternamente na caverna do coração; nitānta – que é extraordinário; ananta – infinito; ānanda – cuja natureza é felicidade; atiśaya – o mais excelente; akṣaya-liṅga – a liṅga imperecível

A quarta estrofe nos diz onde podemos encontrar tão glorioso Senhor. Nas transcendências do sétimo céu? Não: Śiva está, eternamente, desde sempre e, portanto, agora mesmo, residindo na caverna, guha, do coração. No interior mais íntimo dos homens, naquele lugar recôndito desde onde eles dizem a palavra “Eu”, ali, reside este senhor extraordinário, infinito, excelentíssimo, imperecível. Sua natureza é a felicidade, ānanda, que todos experimentam diretamente sempre que os julgamentos equivocados do intelecto sobre o “Eu” estão ausentes.

5) dhimita dhimita dhimi dhimikiṭa kiṭatom tom tom tarikiṭa tarikiṭa kiṭatom…

A quinta estrofe retoma a invocação inicial (bho śambho…) e canta a batucada de Śiva em seu ḍamaru (pequeno tambor) (dhimita dhimita…)

6) mataṅga-muni-vara-vandita-īśa – Ó Senhor que é louvado por Mataṅga, o maior dos sábios; sarva-digambara-veṣṭita-veṣa – Ó Você cujas vestes são todas as direções do espaço; nitya-nirañjana – Ó Eternamente puro; nṛtya-naṭeśa – Ó Senhor da dança; īśa – Ó Senhor que tudo controla; sabheśa – ó Senhor dos palcos; sarveśa – Ó Senhor de todas as coisas

Pegando a deixa da estrofe anterior, a sexta e última estrofe invoca Śiva através de vários epítetos relacionados com a sua condição de Dançarino Cósmico: Ó Senhor Śiva, você que é louvado por Mataṅga Muni, autor de um tratado clássico sobre dança. Mataṅga Muni também pode indicar o pai de Parvatī (Mataṅgī) ou até mesmo Gaṇeśa, já que a palavra mataṅga significa “elefante” e Gaṇeśa, nas histórias das Purāṇas, é conhecido por ter adorado Śiva.

Ó Senhor da dança, Naṭeśa ou Naṭaraja, como é conhecido na forma do Dançarino Cósmico que marca o ritmo da dança do universo: o movimento harmonioso criado quando os cinco elementos tiram as três guṇas para dançar, ao ritmo do incansável dhimita dhimita dhimi dhimikiṭa kiṭatom… de Śiva Naṭaraja.

Ao Sabheśa, Senhor de todos os palcos, ao Grande Percussionista pedimos, auspiciosamente durante o nosso Carnaval, que remova a insensibilidade dos nossos sentidos, a rigidez dos nosso quadris e a disritmia dos nossos pés para que possamos dançar a grande dança de acordo – não com o nosso (im)próprio (des)compasso – mas com aquele dado por Śiva.

Oṃ Namaḥ Śivāya.

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