Teoria da Evolução

A controvérsia em torno da teoria da evolução é outro tema bastante em pauta nas discussões públicas atualmente, e como a tradição Védica se pronuncia sobre a criação do mundo e de todas as espécies vivas a discussão também nos diz respeito, e por isso diremos uma palavrinha sobre o tema.

Em primeiro lugar, não tenho a pretensão de dar algum tipo de parecer final sobre o assunto, porque não possuo qualificação para tanto, e a criação do mundo não é o assunto de Vedanta (Que mundo? – perguntaria o Vedantin estupefato, sentado embaixo de uma árvore). Eu nem mesmo cheguei a ler a “Origem das Espécies”, de Darwin, e o que escreverei aqui será baseado nas informações que tenho sobre o tema de fontes secundárias (basicamente duas: o querido Google e flashbacks das longínquas aulas de biologia do segundo grau).

O argumento evolucionista baseia-se em dois princípios fundamentais: o da seleção natural e o da mutação genética. O primeiro se encarrega de garantir que os indivíduos mais aptos à sobrevivência no ambiente onde estão inseridos passem adiante seus genes, enquanto o segundo produz mudanças aleatórias no genoma do indivíduo que, se por sorte calharem de oferecer alguma vantagem à sobrevivência, serão perpetuadas nas gerações seguintes por meio da seleção natural, causando assim uma evolução na espécie.

A teoria até parece sensata. Ela de fato serve para explicar como as pragas tornam-se resistentes aos agrotóxicos com o decorrer do tempo e, talvez, se tivermos realmente muito boa vontade, também possa explicar como um peixe se transforma em um homem (o que, convenhamos, é uma proeza absurdamente fantástica realizada pelo processo ‘burro’ de mutação aleatória e seleção natural, mesmo contando que esse processo tenha levado milhões de anos, o que nem é tanto tempo assim em escala evolutiva), mas ela de fato não pode explicar  como a vida começou.

A vida já deveria existir para que os princípios evolutivos da seleção natural e da mutação genética pudessem começar a agir, não podendo ela mesma ter sido criada pela ação desses dois princípios. No entanto, se perguntarmos para um darwinista como a vida começou ele dirá sem perder a pompa que a vida “evoluiu” dos materiais inertes disponíveis no caldo primordial, quando o planeta Terra estava esfriando há 4 bilhões de anos. Nesse exato momento a teoria da evolução deixa de ser uma teoria sensata e torna-se um dogma como outro qualquer, pois não há absolutamente nada na experiência humana e na lógica que possa sustentar a suposição de que a vida altamente complexa e inteligente que vemos e que nós mesmos somos tenha surgido espontaneamente de materiais inertes chocando-se entre si ao acaso! Que grande bobagem! Os aminoácidos ou seja lá que princípio inerte que estivesse boiando na sopa primordial não podia ter a habilidade de se auto-ordenar inteligentemente (tanto quanto as letras do alfabeto não podem se auto-ordenar nos comentários de Shankara sobre o Brahma-Sutra), e muito menos de transcender sua constituição inerte transformando-se miraculosamente em vida!

Essa óbvia objeção é, no fundo, a mesma velha objeção que os Vedantins já há muitos e muitos séculos levantavam contra os defensores do Samkhya que, apesar de aceitarem a consciência/vida como distinta da matéria, também são de alguma forma materialistas no seu modo de explicar a criação como um processo puramente mecânico. Para eles, a criação do universo se dá pelo desequilíbrio nos três gunas, que permanecem em perfeito equilíbrio estático durante a fase de dissolução universal. E, dizem eles, a criação se dá por uma perda de equilíbrio dessas três qualidades, que então manifestam todo universo. Ao que o Vedantin prontamente indaga: ‘O que causou o desequilíbrio dos gunas?’ Os seguidores do Samkhya não tem uma boa resposta para essa pergunta, porque não aceitam Deus como a causa inteligente da criação, que seria o único fator possível responsável por causar o movimento criador dos gunas. Pois a noção mais básica de física de qualquer colegial já diz que, sem a interferência de alguma força externa, o que está em repouso permanece em repouso ad aeternum.

Os três gunas inertes não podem simplesmente se combinar inteligentemente sem mais nem menos para criar toda a maravilha que observamos a nossa volta, para onde quer que olhemos (porque os nossos próprios olhos são uma dessas maravilhas!). Da mesma forma, os aminoácidos inertes tampouco são capazes de semelhante proeza. De modo que os teóricos darwinistas da evolução podem provar o que quiserem sobre o modo como o DNA se modifica e produz novas espécies, uma vez que o DNA já exista, mas não podem falar um a sequer sobre a origem do DNA – a origem da vida.

A vida não pode ter uma origem, porque vida não pode surgir de outra coisa que não seja vida. Vida não pode surgir da matéria inerte. Materiais inertes, por mais que se choquem uns com os outros por seiscentos trilhões anos não poderão produzir com isso nem o mais pífio protozoário, e todos os grandes cientistas altamente qualificados que dedicam uma vida de pesquisas acreditando nessa premissa nitidamente falsa são para mim motivo de grande espanto.

Mas a impossibilidade de explicar a origem da vida não é o único ponto fraco da teoria da evolução. Mesmo que o mundo já tenha começado com uma forma de vida muito simples – uma bactéria, por exemplo – a explicação darwinista sobre a passagem da bactéria para o homem através dos mecanismos da evolução é tão excêntrica (ainda que teoricamente “possível”) que muitos cérebros no meio acadêmico já há algum tempo estão buscando outras explicações menos estapafúrdias. Há hoje em dia nas discussões acadêmicas um forte apelo à teoria do design inteligente (TDI), que tem como seu pressuposto lógico que o design das diferentes espécies são mais facilmente explicados pela ação de uma causa inteligente do que pela ação da seleção natural agindo sobre mudanças aleatórias. O que, para mim pelo menos, parece bastante sensato. Sempre achei muito curioso que o materialista darwinista não possa aceitar uma inteligência divina por trás da criação das espécies ‘por ser um homem de ciência e não de fé’, quando a sua própria teoria de que uma ameba depois de algum tempo de conveniente acaso cuidadosamente selecionado tornou-se um cientista é tão esdrúxula que exige um grau de fé muito mais sofisticado do que o exige qualquer religião nesta terra.

À parte das dificuldade inerentes à teoria da evolução ela há de ser verdadeira em alguns aspectos, e nós, estudantes de Vedanta, podemos aceitá-la dentro de certos limites. Definitivamente não aceitamos que a vida tenha “evoluído” da matéria. Uma vez que haja vida, podemos aceitar a evolução das espécies pela mutação e seleção natural em certa medida, desde que a mutação não seja um processo meramente casual, porque não pode existir acaso em um universo que é a manifestação de um ser onisciente.

Esse texto foi escrito por Luciano Giorgio.

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