Uma visão Védica da aprendizagem

 

É muito interessante como vivemos a vida como se tudo fosse muito lógico e natural, sendo que a verdade é que tudo é um mistério tão maravilhoso quanto insondável. Por exemplo, levamos nosso filho para escola esperando muito naturalmente que ele aprenda aquelas coisas todas que ele não sabe. Mas como alguém passa do não-saber para o saber? Ou, dito de outro modo, como um ignorante se torna um sábio?

É claro que passamos logo por cima desse problema dizendo que há a didática ou pedagogia, a ciência do ensino. Um método pelo qual, paulatinamente, uma pessoa é levada do não-saber para o saber. A pedagogia, contudo, é realmente um engodo – um nome bacana para um meio que não está diretamente ligado ao fim visado – porque, para aprender algo, por mais rigoroso que seja o método pedagógico, a pessoa já deve, de início e antes de tudo, saber aprender, e isso nenhuma didática pode jamais ensinar. Não é possível ensinar alguém a aprender.

Só aprende quem já sabe aprender. Só vem a saber quem, de algum modo, já está sabendo – essa é a estranha e inverossímil verdade. Como alguém, por exemplo, aprende a nadar? Por acaso há alguma maneira de ensinar uma pessoa a nadar que já não comece com ela já, de algum modo, nadando? Ela deve começar já dentro da água, porque, convenhamos, treinar bater os pés e dar braçadas no espaço é uma perda de tempo. Ela deve também já estar boiando de algum modo porque, se afundar, não será possível nenhum ensino. Mas se ela já está boiando dentro da água, batendo os pés e as mãos e indo desastradamente de lá pra cá, espalhando água para todo lado, então ela está nadando, por pior que seja a sua natação. Nadando, ela pode aprender a nadar.

Não há maneira de ensinar alguém algo que ele ou ela já não esteja, de algum modo, sabendo. É este saber prévio que determina quem aprende e quem não aprende. Não é realmente a didática nem o professor. Duas pessoas ouvem a mesma aula, uma entende e outra não. Nenhuma das duas se distraiu, estavam exemplarmente concentradas. Não houve qualquer problema de audição ou confusão de palavras. Mesmo assim, uma sai sabendo e a outra não. Uma pessoa pode ter um professor medíocre e aprender direito (apesar do professor) e outra pode ter um bom professor e não aprender nada, mesmo se esforçando. Porque o esforço não dá conta desse saber prévio que faz toda a diferença; não pode entender naquele mesmo instante em que já está ocupado fazendo outra coisa: se esforçando. Tampouco o professor ou seu método tem qualquer poder frente a esse misterioso saber prévio.

A tradição Védica é especialmente consciente do fato de que a aprendizagem não é simplesmente uma questão de método, professor ou esforço. Uma das bases mais fundamentais de toda essa tradição é o entendimento de que o indivíduo não é realmente o agente da ação, no sentido de que ele não pode determinar a consequência de qualquer ação que faça. O indivíduo depende de forças invisíveis para realizar qualquer coisa, mesmo para levantar e ir ao banheiro. As pernas precisam funcionar, assim como a bexiga, os impulsos nervosos, e inúmeros outros fatores cujo funcionamento estão muito além do controle de qualquer um de nós.

Quando não sou capaz, apenas pelo meu próprio esforço ou método, de sequer ir ao banheiro, quanto mais desamparado não estou quando meu desejo é aprender algo, passar da escuridão para a luz? Por esse motivo, a principal ação na sociedade Védica sempre foi a oração, o ritual. A casta mais importante e elevada, sustentada por todas as outras, é a dos brahmanas, as pessoas que passam o dia inteiro fazendo rituais e mantras, não por uma questão elitista, mas por uma questão de visão de mundo, de realidade: nada é possível sem que aquele favorecimento prévio, invisível e inescrutável esteja com uma pessoa. Praticamente todas as orações Védicas feitas pelos brahmanas que pedem por bênçãos são feitas no plural: que haja felicidade, que haja conhecimento, que haja sucesso e paz para nós, naḥ. Só esse fato já é suficiente para esclarecer porque essa era a casta mais nobre: porque sem ela nenhuma das outras poderia fazer bem o que faz.

A oração (feita por você mesmo ou por outra pessoa para você) produz mérito, punya, um resultado invisível que é computado na conta kármica do indivíduo e é a causa para os favorecimentos e facilidades futuras aparentemente fortuitas. Punya é o que faz uma pessoa simplesmente aprender em uma sala de aula, ou ter o desejo repentino de estudar. Por isso, o estudo de Vedanta também é acompanhado de uma vida de orações e rituais. Mesmo se nessa vida a pessoa não conseguir completar o entendimento, na próxima ela terá muito mais facilidade, muito menos esforço.

É claro que para uma pessoa ter vontade de fazer uma oração ela também preciso de punya, mas o mundo é assim mesmo, uma roda já posta em movimento. Como dizia um grande professor de filosofia que tive, a gente sempre pega o bonde andando. E, portanto, você está aqui, lendo e entendendo sobre Vedanta e interessado na liberação, graças aos bons karmas feitos – sabe-se lá como – por você no passado.

Portanto, se você não é capaz de entender algo que você sabe que é verdadeiro e que irá lhe beneficiar, ao invés de assistir à aula 12 vezes, talvez seja melhor você rezar, fazer uma puja, pedindo diariamente a Ishvara para que ele simplesmente faça essa mágica – que só ele pode fazer – de levar alguém do não-entendimento para o entendimento, da escuridão para a luz. Diz uma oração Védica muito famosa, cantada diariamente pelos estudantes de Vedanta:

oṃ asato mā sadgamaya ।

tamaso mā jyotirgamaya ।

mṛityor mā amṛtaṃ gamaya ।।

Faça-me ir da ignorância (irreal) para o conhecimento (real). Faça-me ir da escuridão para a luz. Faça-me ir da morte para o imortal.

Showing 5 comments
  • Adriano A
    Responder

    Om.
    Muito obrigado por você existir em minha vida. É muito aliviante suas orientações.

    Om mano shivaya

  • Isaias M
    Responder

    O VEDANTA E A PSICOPEDAGOGIA

    Caros amigos do Vedanta Online, também agradeço pelo vosso trabalho, pois ele nos faz pensar e raciocinar sobre nós mesmos e nossa postura diante dos desafios da vida, como este texto sobre o aprendizado na visão védica. Portanto, parabéns por esse trabalho.

    Minha preocupação é definir quão geral os termos pedagogia e educação estão sendo utilizados, pois nem sempre estamos lidando com alunos que são conscientes, estão em bom estado de saúde, tenham apoio familiar e forte interação com a cultura do local onde vivem…

    [1] Foi na Grécia Antiga que surgiram as primeiras teorias educacionais. O termo pedagogia, do grego antigo paidagogós, composto por paidos (“criança”) e gogía (“conduzir” ou “acompanhar”). Tomando-se ao pé da letra, o conceito fazia referência ao escravo que levava os meninos à escola. A compreensão de cultura e do lugar ocupado pelo indivíduo na sociedade reflete-se no ensino e nas próprias teorias.
    [2] Assim sendo, quem tinha direito à educação numa sociedade escravagista e dividida por classes, eram os filhos dos privilegiados, governantes e ricos comerciantes, que, então, chamavam-se cidadãos.
    [3] Para esses sortudos é que criaram a expressão “ócio digno”, já que os inferiores estavam lá para todos os trabalhos diários e “indignos”, porém não significava ficar sem fazer nada, mas fazer coisas nobres como governar, pensar e guerrear. Milênios depois, tiramos as tarefas de governar e guerrear e demos o nome mais comercial e politicamente correto de “ócio criativo”.
    [4] A Grécia clássica pode ser considerada o berço da pedagogia, porque foi onde surgiu a primeira reflexão acerca da ação pedagógica e essas reflexões irão influenciar por séculos a educação e a cultura do mundo ocidental.
    [5] Na Grécia clássica, a razão se opõe ao conhecimento meramente religioso e místico e a concepção de educação se resume à inteligência crítica e à liberdade de pensamento. Nem precisamos ressaltar o quanto esse conceito influenciou a educação no mundo moderno.
    [6] Já os povos do Oriente acreditavam que a origem da educação era divina, o conhecimento deles se resumia a seus próprios costumes e crenças, impedindo uma reflexão mais profunda sobre a educação, pois ela era fruto duma organização social teocrática.

    Uma vez feitas essas considerações, que nos remetem à antiguidade grega como referência, podemos pensar no mundo moderno, no mundo do cidadão moderno que continua sendo aquele que tem condições de aprendizado.

    Para os demais, os excluídos, o Estado deveria criar condições para que passem a ter e a serem considerados cidadãos conscientes, saudáveis, dispostos e em condições de encarar o aprendizado que o colocará cada vez mais em harmonia com a sociedade que vive e consigo mesmo. Este extenso tema não compete ser tratado aqui de forma tão superficial.

    Resumidamente, a pedagogia é entendida como uma ciência aplicada de carácter psicossocial, cujo objeto de estudo é a educação. A educação, por sua vez, possibilita ao indivíduo apreender, planejar, direcionar e avaliar as suas ações.

    Ao longo desse processo, é natural que ele cometa erros, que reflita sobre eles e que experimente a possibilidade de corrigi-los. Um aspecto importante nesse processo é buscar consolo em seus semelhantes, pois não se concebe uma vida saudável em isolamento.

    Tal entendimento fundamenta e justifica a preocupação em pensar, repensar e promover as práticas pedagógicas instituídas de modo mais ético, mais eficaz e eficiente, cumprindo assim a função ensinar e socializar.

    Por conta dessa interação do indivíduo com sociedade e com ele próprio, a psicologia aparece com importância no processo de ensino e de aprendizagem, pois se fundamenta no reconhecimento de que a educação é um fenômeno verdadeiramente complexo e o seu impacto no desenvolvimento humano obriga que se considere a globalidade e a diversidade das práticas educativas em que o ser humano se encontra imerso, isto porque a educação se desdobra em múltiplos contextos nos quais as pessoas vivem e participam definidos como âmbitos educativos.

    Assim, a psicologia da aprendizagem aplicada à educação e ao ensino (psicopedagogia), busca mostrar como, através da interação entre professores e alunos, entre alunos e destes com a sociedade, é possível a aquisição do saber e da cultura.

    Quando nos referimos mais à técnica de aprendizado, estamos nos referindo à didática, que pode ser definida como a disciplina pedagógica concentrada no estudo dos processos e práticas de ensino e aprendizagem, que busca a formação e o desenvolvimento instrutivo e formativo dos estudantes com eficiência e eficácia.

    Depois de Jean Piaget, não se pode mais entender o ensino como a simples apropriação de um conteúdo, seja informação, conhecimento ou atitude. O ato assimilador, essência da aprendizagem legítima, correspondente ao ensino que merece esse nome, terá como subproduto a mobilização da inteligência, redundando em progresso cognitivo, em capacidade ampliada para conhecer e aprender.

    Não se limita o bom ensino ao avanço cognitivo intelectual, mas envolverá igualmente progressos na afetividade, moralidade e sociabilidade, por condições que são do desenvolvimento humano integral.

    Após essa pesquisa recheada de conceitos e formalizações, entenda-se como uma visão prolixa e não complexa do problema, chegamos ao Vedanta e vemos que, numa base de pedagogia oriental, com forte base religiosa, ele aborda todos os processos e referências do desenvolvimento integral do ser humano. Incorpora a educação não somente como uma técnica de ensinar, mas, principalmente, de aprender. Não se consegue ensinar nada a quem não quer ou não tem condições de aprender, resume.

    Assim, olhar para o indivíduo com seus problemas pessoais e de relação com a sociedade e com sua espiritualidade é entender que o aprendizado é uma ciência complexa, psicossocial e, mais do que isso, entender que o grande protagonista do aprendizado é o aluno, sua postura, seus objetivos e seu interesse em aprender.

    Embora o Vedanta seja uma filosofia bastante antiga e originada no oriente onde a religião faz parte da vida diária das pessoas, a sua visão de educação e aprendizado é extremamente moderna.

    PS. Pela pressa, ficarei devendo as diversas referências utilizadas nesse pequeno texto, mas sem nenhum intuito de esconder seus verdadeiros autores. Também me desculpo pela ousadia de abordar um tema tão complexo, sem ser um especialista na área. Finalmente, espero não ter sido traído pela memória ao longo deste texto.

  • isymartins@yahoo.com.br D
    Responder

    Om
    Só agradeço …

    Daisy

  • carla e
    Responder

    Om

  • cassi.ax@hotmail.com C
    Responder

    Que belo texto!!! Om

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