Vedanta e a Ingenuidade Científica

Vedanta é apresentado em muitos livros como uma escola de pensamento ou doutrina filosófica. Em geral, os autores desses livros são acadêmicos das ciências humanas (i.e. filósofos, historiadores, antropólogos, teólogos, dentre outros) que teorizam sobre o tema desde fora, subsumindo Vedanta às categorias consagradas no meio acadêmico para que possam usá-lo como objeto de uma análise “científica”. As pessoas que estudam Vedanta tradicionalmente, ouvindo o ensinamento com a atitude de quem está diante de uma revelação, são consideradas por esses cientistas como ingênuas, crédulas, porque, afinal, estão concedendo previamente a uma “doutrina” o status de ser verdadeira por definição.

Vedanta está disponível no mundo como um meio de conhecimento válido. É assim que ele se apresenta e é assim que ele é considerado pela tradição milenar de ensino. Um meio de conhecimento tem a característica de ser algo essencialmente prático, que se presta ao uso imediato do sujeito conhecedor que deseja conhecer aquele âmbito de “objetos” que o meio revela.

Os olhos, por exemplo, como um meio de conhecimento disponível no mundo, já estão sempre sendo postos em prática por nós para conhecermos as formas e cores que só eles podem revelar. Por mais que possamos também teorizar sobre o funcionamento dos olhos – se eles de fato produzem ou não um conhecimento fidedigno da “realidade das coisas” – o fato é que, mesmo nesse caso, teremos que assumir silenciosamente a validade deles para lermos os livros e trabalhos científicos disponíveis sobre o tema e elaborar nossa própria teoria epistemológica. Um meio de conhecimento é, assim, algo essencialmente prático do qual dependemos para conhecer um âmbito da realidade que apenas ele revela.

Quando damos ao Vedanta o status de ser um meio de conhecimento para a verdade última, ele deixa de se prestar para uma análise “científica” – fria, analítica e “descomprometida” – para se tornar algo vital, sumamente prático e inquestionável, tanto quanto os olhos. Nesse caso, Vedanta, como um objeto de pesquisa das ciências humanas, deixa de ser metodologicamente adequado, pois não pode mais ser concebível como uma “escola de pensamento do Hinduísmo”, ou uma “expressão histórico-cultural do povo Indiano”, ou a “religião mais antiga da humanidade”. Vedanta, como os olhos, passa a ser simplesmente um instrumento ao qual você se submete com a expectativa de conhecer algo de outro modo inacessível. Ou, como segunda opção, Vedanta passa a ser algo do qual você não tem nada a dizer, porque você não tem interesse em colocá-lo em uso. Uma pessoa tem todo o direito de permanecer com as pálpebras fechadas mas, neste caso, não tem de maneira nenhuma o direito de se pronunciar sobre a legitimidade ou ilegitimidade dos olhos como meio de conhecimento.

O problema está no fato de que essa abordagem de Vedanta como um meio de conhecimento (que é a maneira tradicional de se abordar Vedanta) é cientificamente estéril, porque teorizar sobre um meio de conhecimento é infantil e inútil. É como estar com sede teorizando sobre a capacidade da água de matar a sede. E é justamente isso que a ciência faz com Vedanta, argumentando que a “objetividade” da ciência nos impede de conceder de antemão a uma “doutrina” o status de ser válida só porque ela assim se proclama. Antes, argumentaria o cientista, devemos examinar com neutralidade a sua validade.

Perguntamos, entretanto, se a ciência examina previamente os olhos com neutralidade antes de usá-los da maneira mais ampla e complacente na coleta dos dados de que se servirá para elaborar suas hipóteses e experimentos? Não, isso sequer é possível. Apenas partindo da validade do que vê, o cientista pode elaborar sua ciência. Então, se Vedanta está sendo usado no mundo (ainda que não por todas as pessoas, mas por um bom número delas, desde há muito tempo) como um meio válido de conhecimento, assim como os cinco sentidos, o que dá ao cientista o direito de submeter Vedanta ao crivo de uma análise prévia antes de simplesmente submeter-se a ele? Apenas a crença infundada de que Vedanta é uma “escola filosófica” ou uma “teoria sobre o mundo”, o que não é de modo algum o modo como Vedanta se apresenta e tem sido usado tradicionalmente por gerações e gerações de pessoas que se beneficiaram daquilo que ele revela. O cientista não tem nenhum direito – além daquele concedido por sua própria ignorância – para considerar Vedanta assim.

Assim, a acusação de ingenuidade contra aqueles “crentes” que consideram Vedanta um meio de conhecimento válido se volta contra o próprio cientista que assim acusa, já que ele mesmo está sendo ingênuo ao querer submeter a validade de Vedanta a uma análise prévia, crendo, sem qualquer fundamento empírico, que se trata de uma teoria, doutrina filosófica ou sistema de pensamento.

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