Vedanta – Yoga em sua essência

Não é fácil definir, de verdade, em poucas palavras a mensagem de yoga em sua essência. A Gita, diz que esse é o maior dos segredos, pois mesmo que seja contado a menos que o outro esteja preparado o entendimento não ocorre.

Vedanta ou “yoga em sua essência” é o estudo que se propõem a elucidar o entendimento correto da palavra “Eu”, onde de forma simples poderíamos dizer que “Eu sou a felicidade que busco”. O estímulo que temos de buscar a felicidade deve ser convertida em uma busca interna de reconhecer que ela já é a minha natureza e que do ponto de vista dos objetos do mundo, eu não preciso de nada para ser feliz.

Apesar dessa ser a verdade de toda vida de yoga, ela não faz sentido e se torna um “dizer” muito superficial, quando colocado de uma maneira crua e fria. Seu entendimento necessita que todos termos dessa equação estejam muito claros: o que é a felicidade, o que é o “eu”, quem busca, e quando usamos o verbo ser, que tipo de relacionamento está implicado entre as palavras. Será que o verbo ser está sendo usado como na frase “hoje é quarta”, “essa é a minha mãe”. A menos que todas essas palavras estejam corretamente definidas a equação proposta por Yoga não faz sentido nenhum. Para explicar essa equação “simples” milhares e milhares de versos são escritos e as pessoas passam anos estudando.

Sobretudo porque existe um amadurecimento que o aluno precisa ter para  se aprofundar na sua jornada. Nem todos já tem a mente qualificada para reconhecer a riqueza desses ensinamentos. Muitas são as dificuldades relativas a esse entendimento, o processo de se entender envolve uma revisão de emocional, de valores, de comportamentos e de objetivos de vida.

As frases apresentadas são muito profundas e muitas vezes se apresentam quase como enigmas no estudo de Vedanta, não pelo fato de ser um estudo místico, mas pela limitação que as palavras tem em descrever aquilo que esta sendo ensinado. Uma alusão interessante a essa dificuldade vem com a seguinte metáfora comparativa:

“Conhecimento é como o dedo que aponta para a lua. O tolo olha para o dedo, o sábio olha para a lua.”

 

Quando o sábio diz “Eu”, ele está apontando para “a lua”, e as palavras, assim como o dedo, são apenas um meio de conhecimento e não o conhecimento em si, o aluno precisa estar preparado, com o contexto criado pelo próprio estudo para ir além do significado direto das palavras e conseguir “olhar para lua”.

A medida que a pessoa se entende, existe uma mudança cognitiva natural e os comportamentos no mundo também vão mudar um pouco, afinal todas as minhas ações estão direcionadas para um único objetivo o “eu” e o “meu”; e se esses conceitos são postos a prova naturalmente mudanças vão ocorrer.

Essas mudanças muitas vezes geram um discurso sobre o conhecimento que apesar de contraditório revelam essa mudança interna que está ocorrendo:

“Entendi na teoria, agora falta a prática.”

 

A diferença de teoria e prática está disponível para conhecimentos que envolvem objetos e ações complexas, onde uma coisa é saber, outra coisa é fazer; pois existem elementos da prática que não são explicados no “livro de receitas”. Contudo, quando estamos falando do “eu” ele não é um objeto e muito menos temos algo a fazer com ele. O “eu” não é tocado por nenhuma ação e portanto não existe essa separação teorico-prática. Podemos praticar fazer bolo, jogar basquete, mas não “ser o eu”.

Ainda assim como o estudo é acompanhado de uma mudança comportamental natural, dizemos que:

“Sabedoria, que não é acompanhada de ação, não é sabedoria”.

 

Quando os Vedas se propõem a explicar o “eu”, esse estudo não é puramente intelectual, apesar de ser fundamentado na lógica. Yoga não é só ginástica, alongamento e práticas energéticas. No decorrer do estudo, várias são as disciplinas que o acompanham, cada uma com um propósito específico, que são apresentadas ao aluno de acordo com a necessidade e maturidade de cada um. Essas disciplinas são abordadas através de um estudo sistemático e claro, e todas as dúvidas que venham a surgir, serão respondidas pelo professor.

Yoga não é um sistema de crenças, não existe nada para acreditarmos e por isso não é um estudo de caráter religioso, porém, como os temas são complexos, podem ser facilmente incompreendidos e mal interpretados.

Para algumas pessoas o obstáculo é estar preso no olhar científico, que por mais que traga uma objetividade boa para o estudo, pode trazer também a ilusão que tudo precisa ser “provado”. Qual a prova que você busca pela felicidade? Qual a prova necessária para viver em harmonia com os outros? Prova é um termo que é restrito ao relacionamento entre objetos. Observe que interessante a definição do físico Sean Carroll  a respeito do que a ciência define como “prova científica”:

“Eu diria que “prova” é o conceito mais incompreendido da história da ciência. Ele tem uma definição técnica: “a demonstração lógica de que certas conclusões decorrem de certas suposições”. Essa definição está em forte desacordo com a maneira como o termo é usado em conversas casuais, onde é definida como: “forte evidência de alguma coisa”. Há uma incompatibilidade entre o que os cientistas dizem e o que as pessoas ouvem(…) Por definição, a ciência nunca prova coisa nenhuma! Então quando nos perguntam “Qual é a prova científica de que nós evoluímos de outras espécies?” ou “Nós podemos realmente provar que as mudanças climáticas são causadas por atividades humanas?” nós tentamos desenvolver uma explicação (…) O fato é que a ciência nunca prova nada realmente, mas simplesmente cria cada vez mais teorias confiáveis e abrangentes sobre o mundo — teorias essas que sempre podem ser atualizadas e melhoradas — esse é um dos aspectos-chave, que explicam porque a ciência é tão bem-sucedida. Todos tratam ela como absoluta mas ela se dá o direito de ser relativa, é apenas mais um sistema de crenças.”

Vedanta propõem a realização de um estudo sistemático, fundamentado, claro e objetivo, rico em detalhes, cuja tradição de mestre discípulo é simplesmente o que a humanidade tem de registro mais antigo, alguns manuscritos encontrados mostram que a 7000 anos esse conhecimento já estava presente.  Conhecimento que visa o entendimento sobre “qual é a natureza do sujeito”, livre do corpo, da mente e das emoções. Um entendimento mais profundo e real de nós mesmos, compatível com a nossa experiência de vida.  Muitas horas de estudo, reflexão, leituras e dedicação são necessárias para uma pessoa possa realizar em sua sua vida o entendimento dessa verdade.

Assista esse trecho de uma palestra introdutório que ocorreu em Campo Grande-MS, ela explica de uma maneira lúdica qual o poder de uma mudança cognitiva.

 

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