A verdade nunca foi tão maltratada. Em geral costuma-se citar a Idade Média como uma época de obscurantismo, porque as pessoas achavam que a Terra era chata, que um buraco no crânio ventilava a mente insana carregada dos negros vapores da bile, ou que as mulheres inteligentes eram bruxas. Mas, mesmo que esses chavões sobre a Idade Média sejam verdadeiros, ainda assim a verdade entre os medievais certamente estava bem mais à vontade do que está hoje entre nós, pois ao menos aquilo que eles achavam verdadeiro era plausível. Hoje em dia não é mais assim.

De fato, não há nada na lógica ou na estrutura da realidade que impossibilitasse que a Terra fosse mesmo chata, que um buraco no crânio melhorasse os pensamentos, ou que as mulheres fossem bruxas, mas é contra as leis mais fundamentais da lógica que a verdade seja subjetiva. E, no entanto, o mantra ‘Cada um tem a sua verdade’ é hoje em dia repetido exaustivamente, com aquela afetação de certeza só proporcionada pela completa ignorância. Isso, eu tenho certeza, ninguém jamais cogitou dizer na Idade Média.

Que a verdade não seja subjetiva não é uma crença minha, ou de alguma pessoa muito sábia a quem devemos crédito, mas é uma necessidade que todos esperam que se aplique à verdade – inclusive aqueles que afirmam que a verdade é subjetiva. Experimente responder para uma pessoa que diz que ‘Cada um tem a sua verdade’  que isso que ela diz não é verdade. Você sabe o que acontecerá? Ela ficará indignada e acusará você de ser um arrogante, um opressor que está pretendendo ‘impor a sua verdade’ goela abaixo dos outros, e blá blá blá.

A situação é tragicômica. A pessoa afirma que a verdade é subjetiva pretendendo que a sua afirmação seja verdadeira – objetivamente, é claro, como toda verdade – válida para todos, pois ninguém fala alguma coisa julgando estar dizendo algo válido apenas para si, o que tornaria a fala completamente sem propósito. A afirmação de que cada um tem a sua verdade, portanto, ao pretender ser verdadeira em sentido estrito, universalmente válida, torna-se automaticamente uma contraprova daquilo mesmo que ela pretendia provar. Há alguma dúvida de que se trata de um embuste dos mais tacanhos, que só pode ser aceito pelas pessoas em um estágio muito avançado de Kali-yuga?

Portanto, o que é pior: acreditar que Papai Noel existe, que a Terra é chata, que se você caminhar até o fim do horizonte você cairá num precipício, ou que cada um tem a sua verdade? A falsidade dos três primeiros casos é algo a ser verificado a posteriori, na experiência apenas, não havendo nada a priori que impedisse que eles fossem verdadeiros. Mas a proposição ‘Cada um tem a sua verdade’ é algo em si mesmo contraditório, ilógico, absurdo; é tão obviamente falso quanto alguém abrir a boca para falar: ‘Eu não estou falando’.

Por isso, digo que a verdade nunca foi tão maltratada, tão ostensivamente ofendida quanto ela é nesta nossa época. Porque o cacoete de que ‘Cada um tem a sua verdade’  não é repetido pela massa inculta – o que já seria grave – mas é papagueado pelos ‘intelectuais’, pelos universitários, pelos professores – por aquela gente que teria o dever de saber alguma coisa. E, não só essa mentira patente é aceita como algo civilizado e de muito bom-tom, mas aqueles que discordam do absurdo são condenados e perseguidos, porque não é ‘educado’ dizer que exista uma verdade objetiva, existente por si mesma e independente dos caprichos de cada um.

Para onde estamos indo? Quero estar errado, mas tudo indica que seguimos para uma época muito mais sombria que qualquer Idade Média.

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  • Gislaine C
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    Oi Jonas gostei do texto, mesmo que ele termina com uma imagem negativa, acredito que a Verdade sempre estará presente em qualquer situação dependendo de quais olhos a vejam ou não.

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