Karma é um conceito fundamental em yoga. Algumas pessoas provavelmente discordariam dessa afirmação, porque consideram karma uma questão de crença e acreditam que yoga não tenha nada a ver com crenças. Independente da questão se yoga é ou não é independente de crenças, o que por si só já seria um tema a ser explorado, o fato é que o conceito de karma não é realmente um conceito do qual um yogi possa prescindir.

Uma vida de yoga não pode ser vivida junto com a crença de que tudo o que existe está aí simplesmente dado do jeito que é sem estar sendo sustentado por uma causa inteligente. Aliás, quero reformular minha colocação: uma vida não pode ser vivida com a crença de que tudo o que existe está aí simplesmente dado do jeito que é sem estar sendo sustentado por uma causa inteligente.

Isso mesmo: nenhuma pessoa vive nesse mundo desde a suposição do caos, da falta de ordem, da falta de sentido. É até um absurdo uma pessoa querer argumentar em favor da ausência de ordem ou sentido. Pois, se ela está se dando ao trabalho de argumentar, é porque acredita que existe uma ordem, uma lógica desde a qual eu entendo o que ela fala e respondo a ela, e vice-versa.

Olhe para o mundo. Para onde quer que você olhe existe a manifestação de inteligência. O chamado ‘mundo físico inerte’ não é nada senão inteligência. Em outras palavras: uma árvore sabe mais de botânica que todos os botânicos reunidos. Não fosse o mundo inteiro a manifestação de inteligência, não haveria ciência possível.

Estando entendido que nada existe fora de uma ordem inteligente que sustenta o universo, a pergunta que se faz é: qual é a causa do meu nascimento? Ora, não posso ter nascido por nada, desde o nada, porque, do nada, nada vem a ser. Dizer que alguma coisa surge do nada é só uma infantilidade encorajada por uma preguiça de pensar. Assim como tudo mais, o nascimento deste corpo também está submetido às regras de causa e efeito.

Nesse ponto, os religiosos podem dizer que cada um nasce de acordo com a vontade de Deus, mas, se esse fosse o caso, Deus seria culpado de parcialidade. Pois as pessoas têm nascimento diferentes: algumas nascem lindas, em casas ricas, com parentes bons e outras nascem deformadas, em casas miseráveis, com pais violentos. Como se explicaria isso?

As pessoa ‘explicam’ esse tipo de coisa com as expressões ‘sorte’ e ‘azar’, que indicam apenas um mero acaso, o que, no final das contas, é o mesmo que dizer que não existe causa. Você pode jogar uma moeda pra cima e dizer que o lado com o qual ela cairá virado para cima dependerá da sorte, ou acaso, mas isso não é verdadeiro. Quando você dá o peteleco na moeda impulsionando-a para cima, o lado com o qual ela irá cair já está determinado pela força que você utilizou, o ângulo de partida, a resistência do ar, a gravidade, e tudo mais que está envolvido. Como não conseguimos calcular tudo, e nem mesmo conhecemos todas as variáveis envolvidas, falamos em sorte ou acaso, que são, assim, apenas expressões da nossa ignorância.

Um mundo governado e sustentado por pura inteligência não tem espaço para sorte ou azar. Portanto, se uma vontade divina parcial não pode ser responsável pelo meu nascimento, e tampouco ele pode ser uma questão de acaso, de sorte ou azar, então a única possibilidade restante é o meu próprio karma.

Karma significa: as ações feitas por mim no passado produzem seus próprios resultados, que por sua vez determinam as situações nas quais me encontrarei no futuro. Assim como existe uma lei da física, existe uma lei do karma que dá a cada ação um resultado adequado. Assim, se uma pessoa nasce em condições desfavoráveis, a causa para esse nascimento são karmas negativos, causados por ações impróprias cometidas no passado. E, ao contrário, um nascimento favorável é causado por ações meritórias feitas pela própria pessoa no passado.

É claro que isso não pode ser ‘provado’, porque os karmas passados não são perceptíveis, assim como a conexão deles com os resultados atuais. No entanto, ainda seja uma crença, é uma crença necessária, assim como a crença na existência do seu tataravô.

Portanto, é verdade que o assunto de karma seja baseado em uma crença, mas é uma crença sensata, necessária, revelada pelas escrituras e amparada pela lógica e experiência. Ademais, o yogi é basicamente aquela pessoa que assume inteira responsabilidade pelo seu sofrimento, atitude essa que não seria inteiramente possível sem a crença na existência de karma.

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  • Gerson R
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    Karma e um assunto vasto, com várias teorias e crenças, e quando atravessamos a vida com uma gama maior de sofrimento é realmente necessário a sua atenção a esses fatos, para não se prender nessa roda e ficar preso nesse sofrimento, a intenção de boas ações vai anulando esses Karmas negativos, e com isso a pessoa consegue adquirir lucidez e um despertar da consciência que vai lhe direcionando a caminhos melhores na sua vida.

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