Yoga, Hábitos e Tendências

Muita gente considera que yoga significa viver uma vida consciente, ou ao menos o mais consciente e deliberada quanto possível. Isso pode até ser verdade, desde que entendamos o que significa uma vida consciente e deliberada. Será que significa uma vida livre de hábitos e automatismos?

Eu sempre me lembro de um gracejo feito pelo Swami Dayananda sobre as pessoas no caminho espiritual que praticam constantemente o “estado de alerta”, em inglês chamado de “mindfulness”. Essas pessoas (apelidadas carinhosamente de “tofu people”, “pessoas-tofu”, pelo Swamiji) tentam passar o dia conscientes de cada movimento, cada pensamento, cada fala. Imitando-as, Swamiji transforma-se em uma espécie de robô, com o olhar perdido na imensidão… Quando chamado, ele se vira muito lentamente: “Sim…?”.

Piadas e gracejos à parte, essa é só uma caricatura do que seja uma vida consciente. Levar uma vida consciente não significa estar literalmente consciente de cada palavra que sai da boca em uma frase, ou cada movimento feito pelo corpo. Esse tipo de vida consciente só serve para levar alguém à estafa mental ou à loucura. Imaginem um pessoa-tofu em uma via rápida em uma grande cidade: ela deve se manter consciente de cada pisada na embreagem, de cada troca de marcha. Ela não pode simplesmente trocar a marcha, mas tem que observar o pensamento de que deve trocá-la surgindo na mente e, em seguida, levar a mão conscientemente até a marcha, o pé esquerdo até a embreagem e fazer a troca. Vocês sabem qual será o resultado desse tipo de “direção consciente”? Um acidente de trânsito.

Mas se viver uma vida consciente não significa virar uma pessoa-tofu, então o que é vida consciente? Qual a diferença entre os hábitos e automatismos de um yogin e os hábitos e automatismos de uma pessoa qualquer?

É uma ideia disseminada no meio dos praticantes de yoga que vāsanās ou saṁskāras sejam coisas ruins, coisas das quais um yogin estaria tentando se livrar. Vāsanās ou saṁskāras (às vezes esses dois termos são usados com sentidos um pouco diferentes, mas eu os usarei aqui como sinônimos) são tendências presentes na personalidade que se manifestam como certos padrões de comportamento. Isso é bastante evidente nos relacionamentos. Por exemplo, sempre que está com a mãe, um filho se comporta de certa maneira: ele fala com uma certa entonação, tem certas sensações ou emoções específicas, e até mesmo fisicamente é possível notar mudanças. Existe uma vāsanā ou saṁskāra associado ao papel de filho. É por acaso possível encarnar o papel de filho ou qualquer outro papel livre de todos os saṁskāras? Não, porque a mente funciona baseada nas tendências ou padrões de reação adquiridas das experiências passadas.

Esse é um mecanismo natural da mente, e é extremamente útil, pois possibilita que nós possamos responder naturalmente às situações sem o peso de ter que tomar uma decisão deliberada, o que tornaria a vida algo absurdamente cansativo. Também é extremamente útil em situações críticas, de ameaça, nas quais uma resposta rápida é necessária. Imagine se um homem das cavernas vendo um tigre dentes-de-sabre na sua frente tivesse que pensar no que fazer, deliberar longamente sobre a possibilidade de correr ou fingir-se de morto? Isso não é preciso, pois o medo internalizado do tigre como uma tendência da personalidade faz com que a adrenalina seja imediatamente liberada na corrente sanguínea, e então o sujeito já está em cima de uma árvore, sem nem saber direito como ele conseguiu chegar até lá.

No caso desse exemplo, o saṁskāra tem um papel operacional perfeitamente adequado à situação. É bom que o tigre desperte muito medo. No entanto, imagine agora uma pessoa tendo que falar em público e tendo a mesma reação de medo que o homem das cavernas: adrenalina a mil, nervos à flor da pele, boca seca, maxilar travado, tremores, sudorese… Está claro que nesse caso existe uma inadequação entre o fato concreto e a reação a esse fato. Existe uma discrepância muito alta entre o fato e a resposta emocional ao fato. E é aí que entra o yoga.

As pessoas de fato procuram yoga para diminuir a tensão e o nervosismo que surgem nas diversas situações de suas vidas. Entretanto, muitas vezes imagina-se que o trabalho do yoga é simplesmente remover a tensão e o nervosismo, o que está longe de ser verdade. O que o yoga pretende fazer é criar aos poucos um novo saṁskāra, oposto àquele que produz as sensações que se quer eliminar ou atenuar. São duas coisas completamente diferentes.

Se um professor de yoga acha que o trabalho de yoga é remover algo diretamente, então ele pedirá para o aluno se sentar de olhos fechados e pedirá para que ele se acalme: “Acalme a sua mente. Deixe de lado os pensamentos que o incomodam. Relaxe.”, etc. Isso é um absurdo. Se a pessoa pudesse relaxar meramente com a sugestão direta de um relaxamento, ela nem chegaria a procurar ajuda. Na verdade, esse tipo de abordagem direta em geral apenas agrava o problema, pois coloca nos ombros da pessoa o peso de ter que “relaxar”. Naturalmente ela não relaxa, e vai criando-se assim um saṁskāra ou vāsanā de aversão às práticas de yoga, porque o papel do praticante vai virando um papel cheio de tensões, culpas, responsabilidades e frustrações, não diferente de todos os outros papéis que a pessoa faz na sociedade e que geraram as dificuldades que a fizeram procurar o yoga em primeiro lugar.

Yoga não funciona assim. O que você faz se não quer pensar em alguma coisa? Você não pensa: “Eu não devo pensar nisso”, mas você simplesmente pensa em outra coisa. Se a mente se interessar por essa outra coisa, naturalmente e sem esforço você parará de pensar na primeira. Todas as práticas de yoga tem em comum o direcionamento da mente para um dado objeto de concentração, no qual a mente pode absorver-se. O objeto, é claro, deve ser adequado, algo que comunique ao praticante certas qualidades que são opostas àquelas que constituem o padrão ou tendência da qual a pessoa quer se ver livre. Se uma pessoa é muito controladora, ela pode muito bem contemplar Deus como aquele que tudo controla e, aos poucos, à medida em que sua mente se aprofunda nessa ideia e vê a verdade dela, tirando dela também algum prazer e conforto, vai se criando um saṁskāra positivo de confiança, que é oposto ao padrão habitual da pessoa, (assimilado inconscientemente na sua infância) de que ela não pode confiar em nada e deve tentar controlar todas as variáveis da vida. A prática de contemplação deve continuar até que o jogo vire: o saṁskāra de confiança torna-se mais forte que o saṁskāra de medo, e então a pessoa assimilou aquele conhecimento e teve uma mudança real positiva em sua vida.

Yoga não é união, paz ou harmonia: yoga é briga de cachorro grande, briga de saṁskāras. O próprio Yogasūtra diz: “tat-jaḥ saṁskāraḥ anya-saṁskāra-pratibandhī – o saṁskāra nascido daquela (meditação) é oposto e impede os outros saṁskāras (os saṁskāras opostos ao conhecimento).”

Podemos entender agora o que é, segundo o yoga, uma vida consciente ou deliberada. Uma vida não-consciente é aquela na qual as tendências inconscientemente adquiridas na infância ou em qualquer outro momento do passado (você pode incluir aí as vidas passadas se estiver confortável com isso) não são vistas, entendidas e trabalhadas, e a pessoa apenas segue o fluxo achando que está vivendo uma vida deliberada. Uma vida consciente é aquela em que, por outro lado, a pessoa consegue perceber seus padrões de comportamento que causam sofrimento e consegue lentamente, através da prática e do desapego, criar um novo padrão de comportamento que se oponha ao padrão antigo e substitua-o, à medida em que ganha força. Uma vez tendo “trocado” esses saṁskāras, ela pode continuar vivendo sua vida naturalmente, como sempre viveu, mas agora com um padrão de reações que ela mesmo escolheu e que não lhe causam perturbações. Assim, uma vida consciente difere-se de uma vida não-consciente apenas porque os saṁskāras ou vāsanās da primeira puderam ser conscientemente escolhidos e cultivados, e não porque ela seja livre deles.

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  • Rosilene M
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    Diante deste artigo percebo como não só o conhecimento mas o entendimento em relação a qualquer assunto faz toda a diferença. Gratidão

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